segunda-feira, 4 de julho de 2011

Escolhas cap 1 ao 4...

Isabela:
Bom, estou criando um livro, e conforme for escrevendo, vou postando aqui no blog para vocês! *-*

                                 





Prólogo:
Com o tempo descobrimos que tudo na vida tem um acaso, e que não importa o quanto seja desagradável à situação da qual somos submetidos, não importa o quanto sofremos; tudo nos leva a algo positivo no final. Não tão positivo como um conto de fadas, onde o bem vence o mal, mas positivo comparado a uma vida real, onde aprendemos a dar valor e a procurar a felicidade em outros meios e caminhos, para poder continuar a viver.


 1.     Choque:

Estava em um lindo bosque, rodeado de flores perfumadas, sentia-me com uma imensa vontade de me jogar naquela linda e convidativa grama, e esquecer tudo em minha volta. Mas ao mesmo tempo em que estava alegre e realizada, sentia como se faltasse algo ao meu lado. Essa angustia se tornava cada vez maior fazendo com que surgisse um enorme buraco em meu peito, me fazendo encolher em posição de proteção e fechar os olhos em um meio de me acalmar.
Fiquei assim por um tempo, até ouvir um som distante. Tentei esquecer aquele barulho agudo e insuportável que estava me fazendo tremer, até que desisti de tentar relaxar e resolvi ir procurar donde vinha esse som tão estridente.
Levantei-me daquela grama meio cambaleando pros lados, ainda reação daquela enorme e insuportável dor que evadia o meu peito. Comecei a procurar o som irritante que se aproximava cada vez que caminhava andava pelo bosque. O som foi ficando cada vez mais intenso, até que tive a necessidade de tapar os ouvidos e me encostar-se a um grosso tronco de arvore que surgiu ao meu lado.
Acordei com o travesseiro em meu rosto, suando muito, e finalmente descobri que esse som insuportável vinha de meu despertador! Desliguei-o com uma enorme vontade de jogá-lo pela janela de meu sobrado.
Não estava com a mínima vontade de levantar, até sentir o cheiro das deliciosas panquecas da Rose, minha empregada e confidente.
Levantei da cama em um pulo e desci as escadas indo direto para a cozinha. Chegando a porta, senti um clima pesado, e aquela dor que me irritava em meus sonhos voltou, mas agora real!
Encarei Rose nos olhos esperando que ela me desse um sinal de tranqüilidade; mas seus olhos estavam preocupados e tristes, o que fez com que o buraco em meu peito se alastrasse pelo meu corpo.
- Bom dia Lizzie!- disse Rose tentando demonstrar um ar mais alegre, mas que eu sabia que era apenas para me confortar.
- Bom dia... O que aconteceu Rose? O clima esta tão tenso aqui em casa!- respondi com uma pontada de esperança de tudo isso ser apenas coisas da minha imaginação fértil.
Rose não sabia mentir; muito menos para mim, seu olhar ficou suplicante, como se ela me pedisse com todas as forças para que deixasse esse assunto para depois. Mas eu realmente não conseguiria comer sem antes saber o que tanto a preocupa!
- “Liz!” - esse era o apelido que ela me chamava quando queria amolecer meu coração, ou quando queria apenas me acalmar - “Por favor, vamos deixar para conversar quando a senhorita voltar da escola, juro que não irei adiar isso mais do que até sua volta”.
- “Não Rose! Eu realmente quero saber agora!” - Eu sabia que se eu suplicasse mais um pouco ela iria ceder rápido.
- “Esta bem Liz! Sente-se, por favor,” - Disse Rose com a tristeza e ansiedade presentes em seu rosto. – “Lembra que seus pais foram viajar, e prometeram voltar hoje à noite?”.
- “Mas é claro que eu lembro Rose, mas qual é o problema?” – Ela realmente não sabia dar uma noticia ruim! Pelo menos era o que estava parecendo. Uma noticia ruim!
- Na volta da viagem – Continuou Rose com seu olhar agora distante. – “O motorista que os trazia acabou dormindo ao volante, fazendo com que o carro capotasse”.
O choque em meu rosto era tão grande, que não consegui evitar que a dor que sentia em meu peito aumentasse me deixando sufocada. Não conseguia ouvir e sentir mais nada, apenas tentava retirar de meu peito a dor que crescia cada vez mais, de uma forma que pensei que fosse explodir.
- “Liz, você esta bem?” - Disse Rose tentando sem sucesso me acalmar.
- “Eles estão bem?” – Joguei essa pergunta da minha boca, com uma imensa dificuldade.
- “Liz, você sabe que realmente não sei mentir para você meu amor·”. - Rose fez uma cara de pena. E era esse o sentimento que ela deveria estar sentindo agora; pena da pobre menina que tão cedo estava tento que lidar com um fato tão duro!
- “Eles morreram, não?” – Mas uma vez joguei essas palavras com uma enorme dificuldade. Droga! Por que isso tinha que estar acontecendo comigo!
- “Sim” – Rose soltou essas palavras em um tom muito baixo, que se não fosse a minha enorme atenção e o silencio da casa, eu não teria ouvido.
Eu não disse nada, apenas apoiei o peso do meu corpo na mesa, tentando levantar. Quando finalmente consegui, me virei a Rose e fiz a ela uma cara de quem não quer ser incomodada, e me retirei rumo ao meu quarto novamente.
Deitei em minha cama pensando em tudo que havia feito de errado para merecer um castigo tão grande de Deus! A dor em meu peito que ainda não cessara só fazia piorar, me deixando cada vez mais zonza.
Fiquei deitada por umas cinco horas, de acordo com meu relógio na minha escrivaninha.
Rose as vezes ia até meu quarto verificar se não queria alguma coisa, tentando me dar algum tipo de consolo; mas na verdade,não existia formas de me consolar.
Não sentia a mínima vontade de me levantar. O que será de mim agora? Uma garota tão jovem, órfã de pai e mãe! Com quem iria morar? Papai e mamãe não tinham muitos parentes próximos, para falar a verdade cada um morava em um país diferente.
Bom, nesse momento não gostaria de pensar em nada, apenas me afundar no travesseiro e esquecer que aquele dia horrível havia existido em minha vida! Pelo menos era isso que tinha em mente, até ouvir Rose conversando com alguém no telefone.
- “Mas ela não pode ficar comigo? É tudo tão recente pra ela, não sei se seria a melhor escolha a ser tomada no momento! O que? Daqui a dois dias? Mas... Ok, Tchau!”.
Rose desligou o telefone e um silêncio tomou conta do ambiente por alguns segundos, até se ouvir uns sons baixos de choro, que eu tinha certeza que vinha de Rose. Gostaria de poder abraçá-la, mas não tinha forças nem de superar o acontecido, muito menos de confortá-la no momento.
A confusão em minha mente misturada com a enorme dor em meu peito fez com que eu permanecesse acordada até o anoitecer, na mesma posição, sem ao menos mover um músculo. Estava exausta, mesmo sem ter feito exercício algum. Meu cérebro não parava nem um instante tentando absorver o acontecido, até que finalmente adormeci.
Pela primeira vez em tempos, não sonhei com nada, dormi como uma pedra. Acordei com o sussurro de Rose em meus ouvidos. Uma voz de conforto, mas ao mesmo tempo medo e angustia.
- “Liz, acorde meu amor! Já esta tarde. Dessa para tomar seu café da manhã!”.
Não tinha forças para contrariá-la, mesmo que à vontade de permanecer na mesma posição fosse imensa.
- “Pode ir. Descerei daqui cinco minutos”. - Joguei essa frase para fora com uma imensa força.
Ao ouvir o som da porta se fechando, levantei da cama ainda sentindo uma leve tontura e meu rosto úmido pelas lágrimas que derrubei no dia anterior. Fiquei pensando que minha vida nunca seria a mesma novamente, nunca! Sempre carregarei esse buraco em meu peito, como se fosse uma cicatriz de uma batalha. Estava até um pouco contente da dor em meu peito não ter cessado, pois nesse momento ela seria o único meio de não esquecer de que um dia tive um pai e uma mãe. Pode ser uma coisa horrível de se pensar, mas no momento, essa dor era a que de alguma forma expunha todo o sentimento de raiva e angustia que guardava em mim.
Ouvi o chamado de Rose novamente. Coloquei a primeira roupa que vi pela frente e desci as escadas o mais devagar possível. Não queria olhar para o rosto de Rose! Não que esteja com raiva dela, mas o seu olhar triste e sofrido apenas tornaria tudo mais difícil para mim. Deve ter sido esse o motivo de não ter me olhado no espelho, meu rosto com certeza estaria horrível!
Quando finalmente consegui descer o ultimo degrau, me virei em direção à cozinha, e dei de cara com um homem alto de terno. Seu rosto era sem sentimento algum e ele possuía um bigode e uma barba bem feita.
Olhei-o fixamente nos olhos, e ficamos nos encarando por alguns segundos. Ele desviou os olhos do meu e forçou sua boca em um meio sorriso forçado. Não retribui, apenas andei em direção a Rose, que permanecia ereta na porta da cozinha.
- “Lizzie, isso são modos? Diga oi ao Sr Henry Roland, ele ira levá-la até sua... Madrinha. Será com ela que você irá morar”. - Rose disse essas palavras com uma enorme tristeza no olhar.
Fiquei a encarando nos olhos e não pude deixar de perceber, uma gota de lágrima brotando neles.
- “Rose, mas eu quero continuar morando aqui! Eu não quero morar com minha madrinha. Para falar a verdade, eu nem cheguei a conhecê-la direito!”. - Eu estava realmente irritada, se não fosse pelo fato de meus pés não conseguirem se mover do lugar, eu estaria nesse momento trancada em meu quarto quebrando tudo que encontrasse pela frente.
Aquele homem cujo nome já me dava arrepios, se virou com indiferença para falar comigo.
- “Senhorita Lizzie, essa casa será vendida e o dinheiro ficará com sua madrinha, até você poder tomar posse dele aos seus dezoito anos. Amanhã irei vir buscar a senhorita e pegaremos um avião para Paris. Sua tia esta muito feliz em recebê-la, esta preparando tudo para suas boas vindas e...”.
- “Obrigado Sr Henry - Disse seu nome como se estivesse dizendo um palavrão! - Mas não pretendo me mudar daqui do Brasil! E muito menos deixarei Rose. Melhor desistir”. - Disse isso com uma enorme vontade de chorar, e ao mesmo tempo partir a cara desse Senhor, que mal conhecia, mas que já havia tomado antipatia.
- “Desculpe Senhorita Lizzie, mas essa não é uma escolha que depende de você. Um bom dia as duas” – Disse o homem se virando e abaixando levemente a cabeça, até se virar rumo à porta.
A raiva que penetrava como veneno ardendo em meu corpo, fez com que eu me retirasse daquele local e voltasse rumo ao meu quarto. Por quantas horas teria que ficar trancada como um animal, com medo de lutar contras os obstáculos que permaneciam porta a fora.
Rose bateu na porta, e mesmo com vontade de não responder ao seu chamado, sabia que a culpa da morte de meus pais não era dela, então o mínimo que teria que fazer era deixar que ela falasse comigo.
- “Entre Rose”. - eu disse com uma voz rouca e baixa.
- “Sinto muito por tudo que esta acontecendo com você minha querida! Eu tentei fazer com que mudassem de idéia, mas não adiantou! Mas prometo que irei visitá-la sempre na casa de sua madrinha”. – Rose não parecia nem um pouco melhor que antes. Sua voz continuava triste.
- “Rose, não precisa se culpar! Eu fico feliz em saber que se preocupa tanto comigo, mas será difícil você sair daqui do Brasil para me visitar em Paris”. – Não conseguia olhar em seus olhos, permaneci de costas para ela.
- “Eu sei que essa não é uma boa hora, mas o velório de seus pais será hoje, daqui a duas horas, você não é obrigada a ir minha querida”. – A voz de Rose agora parecia mais de preocupação.
- “Estarei pronta até lá!”. - Foi à única coisa que consegui falar.
Eu sabia que Rose também estava sofrendo com tudo isso, mas eu não tinha forças para tentar confortá-la.
Bom, eu tinha duas horas para me arrumar, mas não estava com a mínima disposição de levantar daquela cama, que era meu único refugio de tudo que estava passando no momento.
Com um enorme esforço, levantei e fui em direção ao closet. Procurei o vestido preto que havia ganhado de minha mãe há algum tempo. Parecia que ela sabia que eu o usaria em breve.
O nó em minha garganta fez com que eu não conseguisse evitar a lágrima que brotava em meus olhos. Não tinha forças para segurá-la, estava sufocada de tanto tentar segurar todo o sofrimento que guardava em meu peito. Talvez fosse esse o motivo daquela dor não ter cessado.
A ida ao cemitério foi curta demais para meu gosto. Permaneci o caminho todo em silêncio, olhando os carros que passavam a frente da limusine. Ao pararmos no sinal vermelho, um carro simples se estacionou ao nosso lado, e nele estavam um casal jovem com dois filhos, um menino e uma menina. Mesmo sendo um casal humilde, que com certeza não tinha muito dinheiro; pareciam felizes e riam e conversavam uns com os outros. Naquele momento percebi que não necessitavam do dinheiro para sua felicidade, mas o amor que os unia, a alegria de estarem juntos.
O que adiantava, eu, com todo dinheiro que tinha, toda tecnologia que desejasse; mas sem a coisa que era, mas importante, o amor! Por um momento fiquei olhando para aquela família, com um olhar meio que de inveja. Sabia que isso não era o certo de se fazer; não podia invejar a alegria dos outros. Senti-me completamente triste de estar sendo essa garota tão horrível e invejosa. Esse sentimento eu nunca havia provado em minha vida, nunca precisei invejar ninguém.
Fiquei feliz quando o sinal abriu.
Descemos do carro e nos dirigimos em direção ao tumulo, que estava aberto pela minha infelicidade! Não sabia se suportaria olhar para os rostos de meus pais. Permaneci alguns passos longe dele. Rose entendeu, e não me obrigou a me aproximar. Ela se aproximou e colocou uma rosa. Também gostaria de fazer o mesmo, mas meus pés estavam presos no chão, não conseguia me mover. Pedi a Rose que colocasse as flores em meu lugar.
No velório, os únicos presentes era eu, Rose, e alguns empregados da família. Como havia dito, não possuía parentes no Brasil.
Por um momento fiquei feliz em ninguém ter vindo me dar os pêsames. Não estava pronta para ver os olhares de pena que tinham por mim.
Rose se aproximou me deu um beijo na testa, e me abraçou. Senti-me confortada no momento, e não pude evitar derramar algumas lagrimas.
O Velório foi longo demais para meu gosto. Não estava suportando continuar naquele ambiente triste. Prestei atenção em cada palavra do padre, e fiz uma oração a Deus para que os protegessem.
Na volta para casa não quis olhar pela janela, com medo de avistar outra família feliz, que me fizessem ficar com inveja. Rose arriscou puxar assunto comigo, mas percebeu que não ia ter sucesso. Cochilei um pouco na volta para casa, mas acordei com Rose me chamando para entrar.
Entrei e fui direto ao meu quarto, gostaria de tomar um banho e trocar aquela roupa triste, para ver se conseguia eliminar de minha pele aquela sensação pesada.
Mesmo sendo apenas três horas da tarde, estava completamente exausta. Coloquei minha camisola e dormi como uma pedra.
Para minha surpresa, acordei apenas no outro dia, quase na hora do almoço.
Rose bateu na porta de meu quarto perguntando se minhas malas já estavam prontas, o Sr Henry Roland estava me esperando.
Eu não suportava acreditar que mal havia acordado e já teria que passar por outro obstáculo, deixar “minha casa e minha Rose!”. Arrumei as malas aos prantos, pensando em todas as possibilidades de fugir daquele homem ridículo, que pretendia me afastar de tudo que eu amo. Ele estava me afastando de Rose, o único motivo de eu estar viva e superando tudo que estou passando.
Ao terminar de arrumar minhas malas e me arrumar; desci as escadas bem devagar, querendo aproveitar o tempo que ainda me restava na casa que daqui a pouco não seria mais minha! Novamente não pude evitar as lagrimas que lutavam em brotar no canto de meus olhos.

2.     Despedidas:

Ao terminar de descer as escadas, no criado mudo do lado, tinha uma foto minha com meus pais, nós estávamos abraçados. Fechei meus olhos e lembrei o dia em que tirei aquela foto.
Foi em um piquenique que fizemos, sem nenhum motivo ou comemoração em especial. Aquelas lembranças fizeram o buraco em meu peito se aprofundar mais do que antes.
Guardei a foto em minha mala e me direcionei a sala de visitas, onde estava aquele homem cuja presença me nauseava.
Rose me deu um abraço demorado, e senti suas lagrimas caindo em meu ombro. Lagrimas também escorreram de meu rosto, e assim ouvi-a sussurrar em meus ouvidos:
- “TE AMO”.
Entrei no táxi que me esperava em frente de casa, ou melhor, minha ex-casa. Nem olhei para a cara daquele homem, cuja presença me arrepiava!
O caminho até o aeroporto foi curto demais para o meu gosto! Estava enlouquecendo!
Arrependi-me até o ultimo fio de cabelo por ser uma garota tão certinha e medrosa! Deveria ter fugido pela janela de meu quarto enquanto tinha tempo! Mas minha covardia fez com que meus pés enterrassem no chão, impedindo que me movesse.
Chegamos ao aeroporto, infelizmente! Aquele homem cujo nome não gostaria nem de lembrar, tentou me ajudar com minhas malas, mas, eu realmente não queria nenhuma ajuda vinda dele!
- “Deixarei você dentro do avião, sua madrinha estará te esperando no aeroporto de Paris”. - sua voz era fria, sem sentimento algum! Mas é claro, que sentimento ele poderia estar sentindo por mim! Aquele homem frio realmente me dava arrepios e náuseas!
- “Sim”. – Foi à palavra que consegui jogar para fora, sem que viesse um palavrão!
Enquanto esperava o avião chegar, sentada em uma cadeira, passou do meu lado uma menina dando a mão para sua mãe. Elas infelizmente sentaram ao meu lado. Minha vontade era de me retirar daquele assento e procurar outro local para sentar, mas não podia fazer isso, não podia chegar a esse ponto de ignorância!
As duas, mãe e filha brincavam e conversavam uma com a outra, não consegui evitar que uma lagrima brotasse em meus olhos; comecei a lembrar de todos os momentos que passei junto a minha mamãe. Ela viajava muito, então os momentos raros que tive com ela, eram muito alegres e cheios de amor. Eu podia muito bem tentar fingir que ela estava fazendo uma daquelas viagens que fazia a trabalho. Mas meu cérebro teimoso sempre me fazia lembrar que ela nunca mais voltaria para mim!
Dei graças a Deus, quando meu avião chegou! Aquele homem ridículo me acompanhou até a entrada para o avião. Como se eu fosse uma criança de cinco anos! Não via a hora de embarcar, apenas para não ter que encarar aquele “imbecil” de novo.
Ao entrar no avião procurei o meu lugar, e por minha sorte, ninguém estava sentado ao meu lado. Parece que pelo menos uma vez dês daquela desgraça, eu conseguiria ficar um pouco só, sem ter que me preocupar com choros de minha querida Rose, ou caras idiotas como Henry!
Rose, oh Rose! Ao pensar nela, lagrimas brotaram novamente nos cantos de meus olhos.
Minha alegria durou muito pouco, veio se aproximando de mim um garoto de cabelos negros e olhos verdes; sinceramente era o garoto mais bonito que já havia visto! Mas nesse momento de tristeza, não estava com a menor vontade de fazer amizades!
- “Acho que é aqui meu lugar”.- Disse ele, com um olhar sem vergonha, apontando para a poltrona ao meu lado.
Fiquei sem fôlego, tenho que admitir, talvez esse garoto sentando ao meu lado não fosse uma má idéia; pelo menos ele seria uma distração para mim, nesse momento em que tanto necessito!
- “Hum,... pode se sentar!”. - Foi o melhor que consegui falar; como eu era boba!
O garoto abriu um sorriso no canto de seus lábios, que eram lindos por sinal, e se dirigiu ao acento do lado.
- “Olá, meu nome é Luan, muito prazer”. – Seus olhos eram doces, e seu sorriso permanecia no canto da boca.
Estava hipnotizada com sua beleza. Mas nem dessa forma conseguia ficar feliz, a tristeza continuava insistindo em me acompanhar, e o buraco em meu peito!...
 - “Oi, meu nome é Lizzie, prazer”. – Minha voz não parecia nem um pouco agradável, tinha certeza que aquele garoto não suportaria ficar ao meu lado por muito tempo. Meu rosto estava inchado de tanto chorar, e as olheiras eram claras!
- “Então, o que te faz ir a Paris, agora no meio do ano?”.
- “Hum, me responda você, o que te faz ir para lá?”. – Minha voz estava um pouco melhor.
- “Bom, meu pai é chefe de um restaurante em Paris, eu moro com minha mãe aqui no Brasil, mas vou passar um tempo lá”. – Seus olhos agora eram atentos aos meus, parecia que ele estava prestando atenção a todos os meus movimentos.
- “Hum, mas sua... mãe” - gaguejei em dizer essa palavra, que agora tanto me dava angustia – “Ela deixa você viajar no meio do ano?”
- “Isso esta parecendo um interrogatório”. – Seu sorriso safado, deu lugar a um sorriso aberto. Alias, seus dentes eram muito bonitos.
- “Desculpe, não quis que se ofendesse”.- Senti minhas bochechas rosarem. Que droga!
- “Não me ofendi, de forma alguma!”. – Ele disse sorrindo para mim, me fazendo rosar novamente. – “Vou pedir amendoins, você quer?”.
- “Claro, por que não”.
- “Bom, você já sabe um pouco de minha vida, agora me deixe saber um pouco sobre você”. – Seu olhar agora era ansioso.
- “Minha vida não é muito interessante, o que quer saber?”. – Disse isso torcendo para que ele desistisse de ser curioso, não estava a fim de falar de meu trágico passado. Dês da morte de meus pais, eu não havia me aberto e nem comentado do assunto com ninguém. Não sabia se essa era a hora certa!
- “O que te traz a Paris?”. – Disse ele interrompendo meus pensamentos obscuros.
- “Irei morar com minha madrinha”. – Foi à única coisa que consegui falar, tomara que ele se sinta satisfeita com apenas essa resposta.
- “Mas por que? Para estudar?”. – Disse ele, insistindo com suas perguntas.
- “Isso esta parecendo um interrogatório”.- Disse, tentando mudar o rumo do assunto.
- “Talvez”. – Ele deu uma gargalhada, e ao contrário do que imaginava, ele era um garoto muito curioso!
- “Não quero falar sobre esse assunto, por favor”. – Eu esperava que ele realmente entendesse, e não levasse para o lado pessoal.
- “Desculpe, eu não deveria ter insistido!”. – Seus olhos estavam apreensivos, e por um momento senti que ele havia se arrependido profundamente.
- “Não é nada, a culpa não é sua. Talvez até o final da viajem eu diga para você”. – Forcei um meio sorriso, que parece ter dado certo, pois ele sorriu de volta para mim.
- “Aqui os seus amendoins”. – Disse a comissária de bordo. – “Desculpe-me pelo atrazo”.
- “Não foi nada” – Dissemos ao mesmo tempo.
Estava me sentindo melhor que antes.
Não sabia por que um garoto que havia conhecido em pouco tempo, estava me fazendo tão bem!
- “Quanto tempo de viajem ainda nos restam?”. – Disse em uma tentativa de evitar o silencio entre nós.
- “Não sei, acho que algumas horas. Iremos fazer uma parada em uma outra cidade, para embarcarmos direto para Paris”. – Seu tom de voz era calmo.
Gostaria que essa viagem fosse longa, para que eu pudesse desfrutar de sua presença por mais tempo. Mas como tudo em minha vida acontecia o contrario de meu querer, esse tempo com certeza passaria voando.
Sua presença fazia-me me sentir melhor e esquecer um pouco o sofrimento do qual estava passando, não todo, mas um pouco da dor que sentia.
- “Então”. – Disse ele cortando meus pensamentos. – “Já sou digno de confiança?”.
- “Como assim?” - Estava surpresa com sua pergunta.
- “Você não me disse o motivo de estar indo morar com sua madrinha”. – Seu olhar era curioso.
Não sabia se devia contar isso a ele, não sabia se estava preparada para desabafar. Bom, não havia comentado sobre esse assunto com ninguém.
- “É que... meus pais morreram há dois dias”. – Ao dizer isso, o buraco em meu peito que estava um pouco menor, se aprofundou e se alastrou mais do que eu esperava, me fazendo encolher meu corpo. Talvez não fosse uma boa idéia ter contado essa causa tão recente e dolorosa para mim.
- “Você esta bem?” – Seu tom de voz era uma mistura de preocupação com surpresa. Eu deveria estar parecendo ridícula nesse momento.
- “Sim, só não consegui superar tudo ainda”. – Fechei meus olhos, até sentir o leve toque de sua mão na minha.
- “Sinto muito!” – Sua voz era lenta.
Meu coração acelerou e minha respiração também. Tirei rapidamente minha mão da sua.
- “Acho que preciso dormir”. – Infelizmente gaguejei. Como eu era boba!
- “Tudo bem”. – Sua voz era apreensiva.
Estava realmente cansada. Dormi rapidamente.
Sonhei que estava em minha casa com meus pais e Rose; estava tão feliz, conversávamos e riamos muito!
Fui até a cozinha pegar um pacote de salgadinhos, quando vi Henry sentado perto do balcão. Ele puxou meu braço e me arrastou para o carro dele, eu gritava, pedia para me soltar, chamava por meus pais e Rose, mas nada. Ele dizia que eu tinha que ir morar com minha madrinha. Ela precisava de mim, a casa tinha que estar à venda, o dinheiro, o dinheiro!
Acordei assustava, com Luan me cutucando. Não conseguia tirar aquele sonho horrível de minha cabeça!
- “O avião já desceu”. – Disse ele com um sorriso lindo no rosto.
- “Já? Acho que dormi mesmo!”.
Ele deu uma gargalhada, me fazendo sorrir também.
- “Acho que iremos pegar o próximo avião juntos. Não se livrará de mim tão cedo!”. -seus olhos claros eram alegres.
- “Há, por favor!” – sorri, revirando os olhos.
Descemos do avião.
- “Vamos à lanchonete!?”- disse Luan.
- “Esta bem!” – Consegui soltar um sorriso dos lábios!
Sentamos em uma mesa perto de uma parede de vidro, de lá conseguíamos ver os aviões decolando! Era com certeza uma bela paisagem!
- “Nossa! Como Deus é grandioso; olhe só que belo céu azul!” – Os olhos de Luan ficavam ainda mais claros ao olhar para o céu!
- “É muito lindo mesmo!” – Lembrei-me dos dias em que deitava na grama macia de meu quintal, junto a meu pai! Ficávamos observando as nuvens e suas formas, seus formatos variavam!
- “Posso te pagar um sanduíche?” – Disse Luan interrompendo meus pensamentos!
- “Não sei...”.
- “Há, por favor!” – Seus olhos brilhavam tanto..., Eu não poderia renegar!
- “Esta bem!”.
Ele saiu em direção ao balcão, e eu não pude deixar de observá-lo com uma certa admiração! Como ele conseguia ser tão bonito e tão... Irreal! Não pude deixar de reparar também, a forma como a garçonete o olhava! Senti uma pontada de ciúmes! Como eu estava sendo tola! Como ter ciúmes de um garoto que conhecia a menos de vinte e quatro horas?!
- “Aqui esta o seu ‘sanduba’ senhorita”.– Disse Luan brincando com minha cara!
- “Oh! Muito obrigada!” – Estava realmente me sentindo melhor que antes! Isso era muito bom para mim.
Ao terminarmos de comer ouvimos a chamada aos passageiros do avião para Paris.
- “Acho que esta na hora de irmos!” – disse colocando o ultimo pedaço na boca.
Quando estava me levantando, Luan me puxou pelo braço bem de leve, pegou um guardanapo e disse:
- “Espere um instante... Sua boca esta suja”. – Ele não conseguiu evitar um sorriso no rosto, e isso me deixou desconcertada!
- “Há, obrigada”. – Eu realmente deveria estar muito vermelha neste momento!
- “Acontece comigo o tempo todo”. – Seu sorriso era ainda mais ardente.
Com certeza ele devia ter dito isso apenas para me confortar! Isso fazia com que eu me sentisse ainda mais encantada por ele.
Embarcamos! No começo da viagem, dormi praticamente como uma pedra, por mais ou menos umas 2 horas. Graças a Deus não havia sonhado com nada! Acordei e olhei para certificar de que Luan ainda estava ao meu lado, e não houvesse cansado de minha presença chata e sonolenta! Mas ele estava ali, quieto, lendo um livro.
- “Como se chama?” – Eu disse atrapalhando sua leitura.
- “O que?... Oh sim, se chama Nosso lar”.
- “Hum, é romance, ficção... O que é?”.
- “É um romance espírita”.
Nunca havia imaginado em toda a minha vida que existia esse tipo de livro! Bem, eu sabia que espiritismo era uma religião, mas como nunca tive nenhuma religião, não me preocupava com essas coisas.
- “Você é espírita então?” – Achei minha pergunta um tanto quanto boba!
- “Sim, sou! Bem, minha família toda é!” – Ele agora havia fechado o livro e estava apenas olhando para mim. – “E você? Qual religião é?”.
Senti-me um pouco sem jeito com essa pergunta, acho que seria muito feio se falasse que não era nada, mas realmente não tinha como mentir, eu não era nada mesmo! Nunca havia comentado sobre esses assuntos com meus pais, bem, a gente orava, mas... Nunca era com um verdadeiro sentimento!
- “Bom, não tenho nenhuma religião!” – me senti rosar, não de vergonha, mas sim de decepção!
- “Oh, bom... você nunca acreditou em nenhuma religião? Nada?” – Seus olhos eram apreensivos!
- “Não!” – continuava a me sentir cada vez mais decepcionada de mim mesma!
- “Que pena! Se quiser posso te dar esse meu livro, bem, talvez você se interesse”.
- “Mas você não esta lendo? Bom é seu!”.
- “Não!” - ele sorriu. – “Eu já li acho que umas três vezes, e alem do mais, tenho muitos livros em minha casa!”.
- “Me sinto tão envergonhada! Primeiro você me pagou um lanche, agora me dá seu livro. Estou sendo um estorvo para você já!”.
- “Claro que não, eu fico feliz em poder te ajudar, alem do mais, você não esta passando por uma fase fácil em sua vida!”.
Ah não, por que ele havia tocado neste assunto! Senti novamente o buraco em meu peito, e tive que segurar as lágrimas que estavam brotando em meus olhos!
- “Se quiser começar a lê-lo agora! Acho que o assunto que contem nele, ira te fazer bem!” – seus olhos eram preocupados!
- “Bem, parece que você esta me conhecendo alem do que imaginava! E... obrigada por se preocupar tanto assim comigo... a gente mal se conhece e...”.
- “Eu sei que você deve achar tudo isso muito estranho, um garoto que você mal conhece, se metendo na sua vida dessa forma! Eu te peço desculpas, é que dês de pequeno, sempre aprendi a se preocupar e ajudar o próximo! Nossos irmãos”.
Como pode um garoto ser tão lindo, educado e preocupado com os outros; eu realmente não merecia tanta atenção! Ele deveria ser um sonho, que eu nunca gostaria de acordar!
- “Acho que vou começar a ler então! Obrigada mesmo!”.
No começo do livro, me senti um pouco perdida; acho que era tudo muito novo para mim! Nunca imaginei que existia vida após a morte! Bom, se tudo for da maneira como esta sendo retratado lá, acho que me sinto um pouco menos preocupada, pois pelo menos acho que meus pais estarão em um bom lugar!
- “Faltam duas horas para desembarcarmos!”. – Luan disse com um tom de voz nem um pouco feliz!
- “Sim... Você não me parece estar feliz com isso”. – Lá vou eu de novo, me intrometendo em seus sentimentos e sua vida.
- “Bom, eu estou feliz, mas... ah sei lá, gostei tanto da sua presença. Me senti um pouco mal em ter que te deixar agora”. – Suas bochechas ficaram rosadas, pela primeira vez dês de que nos conhecemos.
- “Eu também fico triste com isso!” – minhas bochechas devem ter ficado roxas, a sentia formigar. Com certeza eu tinha muito mais vergonha do que ele.
Luan segurou minha mão, e desta vez eu não a empurrei! Ficamos um bom tempo desta forma, até perceber que ele estava brincando com meus dedos.
Eu sorri! E ele claro, retribuiu, de um jeito encantador!
Não sabia o que me esperava em Paris, não conhecia minha tia, não conhecia aquele novo mundo! Tinha medo de esquecer o meu passado e tudo de bom que ja passei, de esquecer como era viver com eles, como era ter pais, como era minha vida e a alegria que tinha em tê-la!
Desembarcamos!
- "Bem... quem sabe nos encontramos de novo!" - seus olhos agora eram esperançosos.
- "Você tem MSN?" - nossa Lizzie você poderia ser um pouco menos...
-"Tenho sim!" - Luan pegou um pedaço de papel e caneta de sua mala e anotou.
- "Bem, quando chegar prometo que irei te adicionar”.
- "Ficarei esperando ansioso!”.
Seu sorriso era lindo. Fique um tanto envergonhada, meu Deus, com certeza as drogas das minhas bochechas estavam vermelhas novamente!
-"Bem, acho que já vou indo..." - fiz um gesto com a mão para lhe comprimentar.
Para o meu espanto, Luan me abraçou.
- "Tchau!".
Virei-me com enorme esforço, sabia que a partir daquele momento, minha vida seria deixada para trás, todas as minhas lembranças me embalaram e meus pés não saiam do lugar.
- "Lizzie?”.
Virei-me em direção aquela voz fina e alta. Uma mulher alta, de cabelos longos cacheados e negros, pele branca, muito branca!
- "Oh, meu Deus, como você esta crescida! A ultima vez que recebi fotos suas você era uma garotinha!”.
Oh não é comigo que ela esta falando! Não queria parecer grossa mais não estava nem um pouco a fim de falar com ela! Em saber que aquela mulher seria minha companhia até eu ser maior de idade e ter meu livre arbítrio para voltar para o Brasil.
- "Oi!" - Foi à única coisa que consegui pronunciar nessas circunstancias.
- "Bem, você deve estar assustada, eu imagino, não irei fazer perguntas e nem exigir que fale comigo, o que quiser saber, falarei”.- Seus olhos eram meigos.
- “Ta!”.
Virei-me peguei minhas malas e mesmo que tenha parecido um pouco grossa, não me importava, não estava feliz, não tinha que demonstrar felicidade e nem ao menos educação!
- "O carro esta esperando lá fora, vamos! A propósito meu nome é Alice”.- Gentilmente pegou minha mão e eu não me afastei, já bastava toda minha falta de educação!
Entramos no carro, Alice pegou minhas malas e as colocou no porta malas; me senti um pouco folgada, pois não a ajudei.
- "Bem, acho que já podemos ir, seja bem vinda a Paris!" - Seu sorriso era igual aqueles de aeromoças de avião ou guias de turismo, ela falava SEJA BEM VINDA A PARIS como se estivesse me apresentando ao melhor e mais feliz lugar do mundo, estava muito enganada!

3. Mundo novo:

Passamos por casas diferentes, não sei explicar, mas com certeza não estava no Brasil. Estava muito frio e mesmo com aquelas minhas duas blusas de mangas não consegui me aquecer; não pude evitar tremer os dentes provocando um barulho irritante.
- "Imaginei que fosse sentir frio, pegue essa blusa”.
Alice me ofereceu uma blusa de pele de algum animal que não sabia decifrar, bem não me importava! Durante todo o caminho permaneci calada, e é claro Alice não tentou fazer nenhum tipo de contato comigo, ela sabia que não estava com a mínima vontade de respondê-la. Papai sempre me dizia para não ser grosseira com ninguém e muito menos com aqueles que querem o nosso bem! Sentia muito estar lhe contrariando, não quero que pense que sou uma má filha, só não conseguia engolir todas as mudanças que a vida queria me impor!
- "Chegamos querida!" - Alice se virou para mim e sorriu.
Olhei pela janela e vi uma bela casa, bem não era uma casa chique, mas também não era uma casa pobre, era uma casa de família classe média; pelo menos comparadas às casas brasileiras. Não havia portões, era bem pequena e em seus lados havia casas idênticas a ela, eram casas grudadas umas nas outras e pareciam sobradinhos.
Alice desce do carro primeiro, e já abrui o porta malas para retirar minha bagagem.
- "Liz, vamos entrar?" - seus olhos agora eram apreensivos, parecia que ela estava com medo de que eu saisse correndo ou não quizesse entrar. Bem mesmo que quisessem fazer isso, eu não poderia, não havia lugares para ir, não sabia nem ao menos falar francês, e meus instintos de covarde não me deixariam cometer tamanho absurdo.
Desci do carro e segui Alice até a porta.
Fui recebida por um garotinho de mais ou menos uns nove anos de idade, ele era lindo, cabelos negros e olhos azuis, fiquei encantada!
- “Lizz, esse aqui é o Pietro - Alice disse com um enorme sorriso no rosto - "Pietro, c-es't Lizzie, sa cousine!”(Pietro, essa é Lizzie, sua prima!)”.
Não entendia nem um pouco de Francês, mas mesmo assim não me importei, apenas cumprimentei o garoto.
- “Oi, prazer". - me esforcei para sorrir.
- “Salut, nice" - disse Alice, quase de imediato, traduzindo os meus cumprimentos.
- “Soyez les bienvenus Lizzie" (seja bem vinda Lizzie) - diz responde Pietro com um sorriso meigo e envergonhado.
- “Ele te desejou boas vindas" - Alice parecia um tanto quanto esperançosa pelas coisas estarem indo bem. - "Bem, vamos entrar, vou lhe mostrar a casa e seu quarto”.
A casa era um pouco diferente das brasileiras, não sei explicar, mas os móveis eram mais rústicos. Subimos uma escada de madeira em formato de caracol, e ela nos levou a um pequeno corredor, onde ficava o quarto de Pietro, meu quarto e o quarto de Alice.
Mesmo não querendo muito, ela insistiu em me mostrar todos os detalhes de todos os cômodos, até seu quarto. O quarto de Alice não era muito grande, possuía uma cama de casal ao centro dele, um guarda roupa e uma escrivaninha. Ela era viúva já fazia um ano, mas não havia superado a morte de seu marido, por isso existiam várias fotografias deles espalhadas pelo quarto. O quarto de Pietro era lindo, possuía uma cama de solteiro e várias prateleiras recheadas de brinquedos, um guarda roupa azul e muitos adesivos de estrela. Finalmente chegamos ao meu quarto, que era lindo também por sinal, possuía uma cama de solteiro, com uma cocha linda, toda bordada; uma escrivaninha e um guarda roupa.
- “Lizz, venha ver uma coisa!” – Diz Alice.
Ela abriu uma cortina branca e uma porta de vidro, que dava para uma linda sacada com uma cadeira de descanso e alguns vasos de flores. Estava encantada com tantas coisas diferentes, mas ao mesmo tempo triste, não me sentia à-vontade nesse lugar, sentia o buraco em meu peito se espalhando novamente.
- “Olhe, que paisagem mais linda!” – Alice disse e respirou fundo, como se estivesse contemplando aquilo pela primeira vez.
Olhei e observei cada detalhe, mais ao longe, não acreditava em que meus olhos viam, era a torre Eiffel! Fiquei contemplada e deslumbrada com tamanha beleza, nunca havia visto algo tão bonito! Morava em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, coisas como essas, observava apenas pela televisão.
Ah como eu queria que mamãe e papai estivessem presenciando esse momento comigo, como eu queria que o passado voltasse, como eu queria voltar a sentir seus abraços, seus beijos, seus toques... Eu não sei por quanto tempo ainda suportaria ficar sem eles.
- “Bem, acho que vou lhe deixar um pouco sozinha, pra você poder se acostumar com o lugar e se sentir mais à-vontade”.– Diz Alice com um meio sorriso.
Não respondi, apenas concordei com a cabeça.
Arrumei minhas malas e fiquei um tempo a observar aquela linda paisagem, de alguma forma ela me fazia me sentir bem! Estava cansada, aquele dia para mim não parecia ser real, eu esperava dormir e acordar novamente em meu quarto, com Rose me acariciando e meus pais ... Bem,... Meus pais vivos! Adormeci.
Tudo era tão belo, Luan estava ao meu lado recitando uma letra de uma musica que eu adorava, “Pensa em mim”. Sentia-me feliz e realizada.
- “Sua mãe pediu que colhêssemos algumas flores para ela!” – Diz Luan em meu ouvido.
- “Sim, daqui a pouco...”.
- “Lizzie, Lizzie, Lizzie, venha”.– Diz mamãe me puxando dos braços de Luan. Fui sem retrucar.
Corremos por um campo cheias de flores lindas e perfumadas, eu sentia o cheiro delas em meu interior como se estivessem dentro de mim. Mamãe ria e eu também, de repente nos deparamos por um enorme penhasco, e dele ouvíamos uma voz graciosa e suplicante que parecia muito com a de mamãe, olhei para o lado meio confusa e vi que ao meu lado não era mamãe, mas sim Alice, que segurava minha mão com força e sorria, sorria ardentemente.
- “Filha, venha aqui minha querida!” – sua voz era suplicante.
- “Estou indo mamãe”.
Mesmo sabendo que era arriscado, eu queria pular aquele penhasco, naquele momento me concentrava apenas em sua voz, em minha mente vinha apenas à possibilidade de poder abraçá-la, de poder ficar ao seu lado, junto a ela e ao papai.
- “Filha querida, venha aqui!” – dizia papai com a mesma voz de súplica.
Soltei a mão de Alice e fui para a beirada do penhasco, sentia o vento bater forte em meu rosto, a adrenalina rolava em minhas veias, mas não sentia medo, sentia alegria, estava ansiosa em reencontrar meus pais. Quando estava preste a dar o próximo passo, senti a mão fria de Alice em meus ombros, virei quase de imediato para trás, seu rosto era triste e de suplica e ela pedia ardentemente para que eu não fosse, não a deixasse.
- “Eu tenho que ir são meus pais!” – estava chorando.
- “Não, por favor. Não!” – ela chorava ainda mais que eu, seu choro era desesperador, nunca havia visto Alice daquela forma, nos poucos momentos em que a conheci apenas lembro de seu sorriso meigo e rosto passivo.
Soltei seu braço de meu ombro e senti que ela se jogava de joelhos ao chão. Virei imediatamente.
- “Não quero magoá-la!” – eu chorava cada vez mais.
- “Lizzie meu amor, venha!” – Era novamente a voz de mamãe, suplicante e graciosa.
Meu Deus, eu não podia deixar mamãe e papai, e ficar com uma mulher que havia conhecido há pouco tempo. Eu não podia, não, não...
- “Lizz, acorde querida, o café da manhã esta na mesa”.
Até que enfim, havia voltado para casa, aquele sonho era horrível, e parecia muito real, mamãe não havia morrido, estava ao meu lado, pedindo que me levantasse.
Abri meus olhos devagar e vi que quem estava ao meu lado não era mamãe, nem Rose, era Alice; eu não havia sonhado, estava em Paris realmente, aquilo era real, papai e mamãe haviam morrido, Rose havia ficado em Rio Preto; eu estava sendo acordada por uma mulher que nem ao menos conhecia direito, me sentia mal, muito mal, queria correr daqui, queria poder voar, voar para o Brasil, voar para os braços de mamãe e papai. Queria poder chorar, mas não conseguia, meus sentimentos por mais que fossem profundos me impedia de derramar ao menos um pingo de lágrimas, acho que acabei com meu estoque ontem!
- “Lizz, você esta bem?” – Alice parecia preocupada.
- “Sim”.– joguei essa palavra de meu interior, quanto mais o tempo passava, mais a dor dessa perda se aumentava e menos eu conseguia pronunciar qualquer palavra.
- “Bem, eu estou lá embaixo, Pietro esta ansioso em vê-la novamente!” – Alice trocou aquela mascara de preocupação por uma de alegria.
- “Sim!” – disse sem a mínima vontade.
Alice saiu do quarto e fiquei um tempo deitada em minha cama, absorvendo aquele sonho terrível que havia tido. Finalmente me levantei, me direcionei ao banheiro, lavei meu rosto, escovei meus dentes e vesti a primeira roupa que havia encontrado pela frente.
Desci a escada, e conforme fui me direcionando a cozinha, fui sentindo um cheiro delicioso de bacon, ovos... Naquele momento me lembrei que fazia tempo que não comia e estava com muita fome!
Cheguei à cozinha e vi Pietro sentado na mesa, como um adulto, comendo em um prato de plástico, ovos e bacon, sorri para ele e olhei em direção a Alice.
- “Bom dia!” – tentei sorrir.
- “Bom dia querida!” – disse Alice – “Pietro, Lizz dit bonjour” (Pietro, Lizz disse bom dia).
- “Bonjour Lizz” – Pietro sorria para mim.
- “Bonjour” – eu disse treinando um pouco de meu Francês, que era uma droga por sinal!
- “Aos poucos você aprende!” – disse Alice sorrindo.
Eu apenas sorri novamente, e me sentei à mesa. Até a comida de Paris era diferente, tinha um gosto diferente da brasileira. No começo comi com um pouco de vergonha, mas depois estava com tanta fome, que acho que fui até um pouco grosseira em minha forma de comer. Alice deve ter pensado que comia igual a um homem!
- “Temos que ir atrás de uma escola para você em breve!” – Diz Alice cortando o silêncio da mesa.
- “Bem, não quero ir a escola por enquanto...!” – Eu não era preguiçosa e nem burra, mas não estava com cabeça para ir a escola, para mim ser matriculada em uma escola nesse momento, era a prova de que o que eu estava passando era real! Era a prova de que Paris era o meu presente! Não estava pronta para aceitar esse presente!
 - “Tudo bem, não quero te forçar a nada, cada coisa há seu tempo”.– Alice piscou para mim.
Apenas dei um meio sorriso a ela. Terminei de comer e perguntei se poderia voltar ao meu quarto, Alice disse que sim, então voltei ao meu refúgio, que no momento era o único lugar que me sentia um pouco mais à-vontade na casa.
Sentei-me na cama e comecei a relembrar de meu sonho, por mais que tenha sido doloroso e cruel, eu comecei a me recordar e me concentrar apenas em seu começo, na parte onde estava sentado junto ao Luan, aonde ele cantava em meus ouvidos, me fazia lembrar o Brasil, me fazia lembrar de como o conheci, de como ele havia se tornado tão especial para mim em tão pouco tempo. Peguei de minha bolsa o livro que ele havia me dado, coloquei-o perto de meu rosto, a fim de sentir o seu perfume, por um momento deu certo, não sabia se era apenas minha imaginação, mas sentia perfeitamente seu perfume, tão suave e delicioso. Abri o livro e resolvi ler um pouco, o livro se chamava “Nosso Lar” e contava da vida de um homem que havia morrido e deixado seus filhos e esposa para trás; fiquei pensando em como ele devia ter sofrido, em deixar toda sua família! Por um momento não me senti a única, senti que poderia superar tudo. Bem, esse homem havia passado por um caminho de dor e sofrimento antes de chegar ao céu, ele teve que aceitar e pedir perdão a Deus por todos os erros que havia cometido, pois ele fumava e bebia enquanto vivo. Fiquei pensando por um tempo, papai também fumava, mas não bebia, será que ele e mamãe tiveram que passar por tudo que esse homem teve que passar? Fiquei um pouco preocupada por eles, e esqueci por um tempo a dor de minha perda; me senti um tanto egoísta, pois enquanto estava aqui chorando, sofrendo, não fazia a mínima idéia do que eles estavam passando do outro lado. Parei um pouco de ler e resolvi então fazer uma oração por eles, dês da morte de mamãe e papai não havia ao menos lembrado de orar por eles, de pedir proteção; estava tão presa em meus sentimentos e minhas emoções que não pensei na possibilidade de orar pela alma deles.
Orei com muita fé!
Depois de ler os dois primeiros capítulos do livro, já estava me sentindo um pouco melhor, lembrei então de ligar meu notbook e aproveitei pra adicionar Luan. Não estava afim de falar com ninguém, estava muito triste, e falar com minhas amigas me fazia lembrar de meu passado, me fazia querer estar com elas. Entrei então como ocupada, mudei minha frase do MSN e adicionei Luan. Para minha alegria eu acho, ele me aceitou rapidamente, estava online!
Luan diz:
- Oi J, achei que não fosse mais me add.
Lizz diz:
- Oi ;), desculpa a demora, não estava com cabeça pra isso!
Luan diz:
- Ah sim, desculpa =/
Lizz diz:
- Vc não tem que me pedir desculpas, ah, estou lendo o livro que você me deu!
Luan diz:
- Então, você esta gostando?
Lizz diz:
- Sim, muito! Me ajudou a entender um pouco a morte de meus pais.
Luan diz:
- Ah que bom! Fico feliz em saber :D
- O que faz de bom?

Gabi diz:
- Lizz *-* que saudades, você esta bem?
“Ah meu Deus, eu não estava a fim de falar com nenhuma de minhas amigas, elas representavam para mim o meu passado, e meu passado me fazia lembrar de Rio Preto...
Lizz diz:
- Oi amor! *-* Também estou com saudades! Estou bem sim!
Eu não estava bem, mas isso era apenas de minha conta! Não queria preocupar Gabi e ninguém com isso!
Gabi diz:
- Eu fui à sua casa hoje e não te encontrei, bem eu não encontrei ninguém lá, o que aconteceu? Vocês se mudaram?
“Naquele momento, a dor tomou conta de mim, eu não quero falar com ninguém que me faça lembrar de tudo que passei, não quero pensar que nesse momento a casa onde passei os melhores momentos de minha vida estava vazia, sem ninguém, como uma casa abandonada, uma casa que para mim representava um momento feliz de minha vida! Melhor eu bloquear a Gabi, pensei comigo mesma! Eu não quero que ela comente de ninguém e nem me faça contar o que esta acontecendo! Mas por outro lado, ela não fez nada para mim, eu não posso fazer isso com ela que sempre foi minha melhor amiga!”.
Lizz diz:
- Bem, eu não estou mais morando em Rio Preto!
Gabi diz:
- Você só pode estar brincando comigo! Aonde você esta morando? Você não me falou nada, nem me disse tchau!
“Pronto, aquele foi o fim, não podia ficar discutindo com ela daquela maneira, ela só iria me fazer me sentir culpada, me fazer me sentir triste em deixá-la, em deixar todos eles!”.
“Estava me sentindo sufocada, o buraco em meu peito se espalhava pelo meu corpo como uma praga, me fez dar um nó na garganta! Não conseguia respirar, tentava chorar, mas me parece que meu estoque de lagrimas ainda não haviam se enchido novamente! Que droga! Eu não deveria ter entrado no MSN!”.
Lizz diz:
- Eu estou em Paris! Desculpa, não estou muito bem! Me desculpa, eu queria poder me despedir, mas não pude! Falo com você depois, me perdoe! Te amo amiga!
“Bloqueei ela! Sentia-me terrivelmente mal por fazer isso, mas esse foi o único jeito!”

Lizz diz:
- Desculpe a demora! Ah, não estou fazendo nada e você?
Luan diz:
- Só falando com você e uns amigos!
Lizz diz:
- Hum! J
Luan diz:
- Você não me parece muito bem, quer contar para mim?
“Não sei se deveria contar o que passava para ele, estava mesmo é querendo fugir de tudo que aconteceu, queria que nada e nem ninguém me fizesse lembrar de meu passado, mas parece que quanto mais eu tentava me afastar de tudo, mais meus pensamentos me traziam de volta a ele, mais as pessoas me perguntavam!”.
Lizz diz:
- Bem, não é nada, só ainda não consegui ingerir tudo que passei, sabe meus amigos ainda não sabem de nada e prefiro que continue assim!
Luan diz:
- Ah Lizz, essa dor vai passar! Um dia você terá que esquecer do sofrimento, e guardar em sua mente apenas as boas lembranças!
Lizz diz:
- Mas, eu tinha tantos sonhos, eu planejei em minha mente um futuro diferente! Agora depois disso não penso mais em nada, não sinto vontade de fazer nada! Meus sonhos foram derrubados, e agora não fazem mais sentido algum!
Luan diz:
- Lembre-se de uma coisa Lizz, sonhos não morrem, apenas adormecem na alma da gente!
“Que frase mais linda! Me fez lembrar de tudo que sonhava para meu futuro, não é porque estou em Paris, que devo desistir deles! Eu sonho em ser bailarina, mas depois da morte de meus pais, não conseguia pensar em dançar, em seguir meu sonho! Desde o começo, quem sempre me apoiou na dança foi minha mãe, ela que me levava as aulas e me animava quando estava sem disposição; se não era ela, era Rose. Mas Luan tinha toda a razão! Esse meu sonho estava apenas adormecido em minha mente, e quem sabe um dia, depois de toda essa dor, eu possa pensar em seguir meus sonhos!
Lizz diz:
- Obrigada mesmo! Acho que vou colocar essa frase em meu MSN!
Luan diz:
- Que bom que gostou! Quem criou essa frase foi Chico Xavier.
Lizz diz:
- Quem é esse?
Luan diz:
- Um médium espírita, em sua vida toda ele se dedicou a se comunicar com os mortos, e a cuidar das pessoas. Sua mãe também morreu cedo e ele era bem jovem!
“Então quer dizer que existem pessoas que conseguem se comunicar com mortos? Isso para mim era um absurdo, mas ao mesmo tempo encantador! Como eu queria poder fazer isso, me comunicar com meus pais, saber que eles estão bem! Se eu ao menos conhecesse alguém que fizesse isso, eu poderia pedir que se comunicasse com meus pais!”.
Lizz diz:
- Nunca imaginei isso! Mas... Existem mais pessoas assim?
Luan diz:
- Sim, cada centro espírita para ser criado, necessita de uma pessoa que se comunique e possua a mediunidade! Muitas pessoas têm medo! Mas não é nada demais! Sabe Lizz, eu acho que antes de você ler o livro que te dei, você deveria ler o livro para iniciantes, sabe, ele te ajudará a compreender melhor tudo isso!
Lizz diz:
- Aonde eu posso achar esses livros?
Luan diz:
- Bem, você pode pesquisar na Internet e baixar, existem sites especializados nisso!
“Fiquei muito curiosa em saber mais sobre esse assunto, eu não tinha medo! Alem do mais, porque ter medo de quem já morreu sendo que no mundo existem tantas gentes vivas que podem nos fazer mal! Pesquisei na Internet sobre esse tal de Chico Xavier e achei muitas coisas interessantes, ele realmente foi um homem muito bom!”.
Luan diz:
- Então Lizz, a gente podia combinar de sair, sabe, conhecer Paris!
“Ah meu Deus e agora? Estava tão feliz, mas ao mesmo tempo tinha muito medo! Não sei se deveria sair com Luan, sabe, a gente nem se conhecia direito.
Mas quer saber de uma coisa, acho que irei aceitar, sair um pouco e esquecer de tudo que estou passando, me fará bem!”.
Lizz diz:
- Ah, mais quando?
Luan diz:
- Bem, hoje é sexta feira, a gente poderia sair amanhã, sábado à noite! Paris fica lindo de noite!
“Sábado a noite?! Não sei se é uma boa idéia! Bem, eu não sabia andar por Paris, não conhecia a língua local, a única língua que sabia um pouco era inglês!”.
Lizz diz:
- Mais eu não sei falar Francês, e não sei andar por aqui!
Luan diz:
- Você sabe falar inglês? É a segunda língua mais falada aqui!
Lizz diz:
- Sei sim, mais ou menos! Mas... você sabe andar aqui em Paris, sem se perder?
Luan diz:
- Eu moro no Brasil, mas sempre venho para cá pra visitar meu pai; nós podemos jantar no restaurante dele!
“Tinha esquecido que o pai dele tinha um restaurante aqui!”.
Lizz diz:
- Então ta! Eu entro no MSN amanhã pra confirmar?
Luan diz:
- Você que sabe, se quiser passar seu celular ou telefone pra mim te ligar.
“Que vergonha, não pude evitar ficar vermelha”.
Lizz diz:
- Ta, 91451364.
Luan diz:
- Então eu te ligo! Que horas?
Lizz diz:
- Ah, umas três horas da tarde!
Luan diz:
- Ok!
Estava perdida em meus pensamentos, de como poderia ser esse encontro, quando ouvi Alice me chamando.
- “Lizz, venha almoçar!”.
- “Já estou indo!” – minha voz parecia um pouco melhor!
Lizz diz:
- Tenho que sair! Vou almoçar. Beijos, tchau!
Luan diz:
- Ok, até amanhã!
Lizz diz:
- Até!
Desliguei o notbook e desci para almoçar.
- “Lizz, o que você gosta de comer?” – Alice disse com aquela sua voz tranqüila.
Eu não sabia que tipo de comida que Alice tinha feito no almoço. Alem de não conhecer nada da comida de Paris, não sabia nada sobre como Alice era no fogão! A única pessoa que cozinhava para mim era Rose e mamãe! Mas preferia não lembrar nesse momento!
- “Ah... de tudo um pouco!” – Eu realmente era muito gulosa.
- “(risos) Você me faz lembrar uma sobrinha minha, ela parecia muito com você!”.
- “Verdade? Como ela se chama?” – Eu não sabia nada sobre a vida de Alice, ao menos sabia que ela tinha irmã, e quem diria sobrinha!
- “Ela se chamava Brenda”.
- “Como assim se chamava?” – não havia entendido o que Alice quis dizer com isso.
- “Bem, ela faleceu a uns três anos atrás!”.
Não sabia o que dizer depois dessa, eu realmente não queria entrar em detalhes sobre esse assunto, não sei se tenho o direito de mexer na privacidade de Alice e de sua família! Mas como sempre, minha curiosidade, não iria deixar que essa afirmação passasse batida. Como meu pai sempre me dizia, “Lizz, você é tão deselegante, deve ter puxado para o lado da família de sua mãe...!”.
Meu pai não era um homem mau, só não gostava de dar o braço a torcer; para ele todos os meus defeitos eram heranças maternas, nunca dele!
Mas como eu estava dizendo, minha ‘curiosidade materna’ não ia deixar essa história passar batida.
- “Sinto muito! Vocês eram muito próximas?”.
- “Bem... éramos sim! Brenda era minha única sobrinha, na época, Pietro não havia nascido ainda, então eu dedicava a ela muita atenção”.
- “Ela morreu de quê?” – Eu estava sendo realmente desagradável agora! Acho melhor eu concertar essa minha falta de bom senso! - “Me desculpa mesmo Alice, você não precisa me contar sobre isso, eu imagino o quanto deve ser difícil para você relembrar esse assunto”.
- “Lizzie, deixe eu te dizer uma coisa. Quando gostamos muito de uma pessoa, é difícil para nós deixá-las partir; é praticamente insuportável pensar em viver sem ela ao nosso lado. Mas conforme o tempo passa, começamos a perceber que não importa se ela se foi fisicamente, as lembranças das quais ela deixou, nunca nada conseguirá apagar! Se você realmente ama, tem que ser forte e entender que tudo nessa vida se vai, se perde; mas o amor e as lembranças que sentimos, nada pode nos tirar”.
As palavras de Alice vieram até mim em um bom momento, preenchendo um pouco do buraco que havia em meu peito. Se eu amo realmente meus pais, o fato deles não estarem mais ao meu lado, não faz com que diminua meu amor por eles, mas pelo contrário, faz com que fique maior, cada vez maior, e não importa onde eles estejam, eu sei que eles estarão sempre ao meu lado. Esse é o motivo pelo qual eu acreditei e me apeguei tanto aos livros e teorias da religião de Luan, pois só depois que eu perdi eles, que eu realmente entendi qual é o valor de uma perda, qual é o verdadeiro sentimento que existe por traz dela.
- “Ela morreu de câncer no sangue”.- Completou Alice, interrompendo meus pensamentos.
- “Hum... Tenho certeza que onde quer que ela esteja, ainda pensa em você!”. – tentei parecer um pouco agradável com ela, depois dessas palavras de conforto das quais ela dedicou a mim, o mínimo que eu podia fazer era retribuir.
- “É, eu sei. Obrigada minha linda!”.
- “Mère, j'ai faim!” (mãe, estou com fome!) – Diz Pietro entrando na cozinha.
- “Pietro tout est prêt, vous laver à la main et viens manger”.(Ja esta tudo pronto Pietro, vai lavar a mão e venha comer). – “Lizz, a comida já esta pronta, me ajude a colocar os pratos na mesa”.
Os pratos de Alice eram todos trabalhados, muito bonitos, lá no Brasil minha família só usaria pratos como esse em ocasiões especiais, ou quando íamos a algum restaurante chique.
O almoço foi tranqüilo, mais do que eu esperava. Não que eu aguardasse alguma briga, mas minha mente estava tão atordoada com tantas novidades que achei que esses meus pensamentos não me deixariam em paz, pelo menos por um tempo.
Eu ainda pensava bastante na possibilidade de não ir ao encontro com o Luan, não sabia se era uma boa idéia e nem se Alice me deixaria andar pela cidade com uma pessoa desconhecida e ainda por cima sozinha.
- “Querida, eu vou ao mercado agora à tarde, você gostaria de ir junto?”. – Alice parecia um tanto esperançosa com a minha resposta.
- “Esta bem, eu vou!”. – tentei parecer a mais animada possível.
Ela me retribuiu com um sorriso carinhoso.
Terminei de almoçar e pedi licença para me retirar da mesa, tinha que desmanchar minhas malas e me trocar para ir ao supermercado.
Havia coisas em meu quarto, das quais não dera tempo de reparar antes, como o cheiro rústico e as cores dos móveis, com aparência antiga. Eu não havia trazido muitas coisas para Paris, eram apenas duas malas grandes, uma de roupa e outra de objetos. Enquanto as desfazia, sentia aquela leve impressão de que havia esquecido alguma coisa para trás, não sabia dizer por certo, mas aquela impressão crescia conforme as malas se esvaziavam.
O guarda roupa era grande, e eu não havia conseguido ocupar nem metade dele. Minhas roupas, por mais que fossem poucas, eram todas de grifes caras; não havia nenhuma delas da qual eu poderia classificar como a típica “roupa de ficar em casa”. A mala também era uma referencia a quem quisesse classificar meu jeito de ser:
- “A típica patricinha!” – Pensei em voz alta.
A morte de meus pais criou uma nova Lizzie, todas aquelas coisas das quais eu dava tanta importância, nesse momento não me faziam falta alguma. Enquanto desfazia minhas malas, ia me descobrindo. Sapatos de marca, bolsas caras, relógios da moda... Virei a mala inteira na cama, e uma caixinha caiu e acertou meu pé. Era a caixinha de música que meu pai havia comprado para mim quando eu comecei minhas aulas de balé; a música que tocava nela era a que minha mãe cantarolava para eu dormir. Eu não estava a fim de relembrar aquela canção, por mais que meus pensamentos me levassem diretamente a ela, abrir aquela caixinha iria me trazer lembranças mais profundas de todos os momentos dos quais eu sei que nunca poderei presencias novamente.
O nó na garganta estava começando a se formar, e eu sabia que com ele viriam as lágrimas. Guardei a caixinha e tentei esquecer todas aquelas lembranças.
Tentei arrumar o mais rápido possível, todos aqueles objetos que cobriam minha cama. Maquiagens, pulseiras, colares, brincos, anéis...
Finalmente, depois de algum tempo, consegui terminar de arrumar tudo.
- “Lizz, você já esta pronta?” – gritou Alice.
- “Me dê cinco minutos”.
- “Esta bem!”.
Coloquei minha blusa dos Beatles, uma calça jeans e um tênis preto; prendi meu cabelo em um rabo alto e desci.
- “Lizz, estava mexendo em algumas fotos minhas, e encontrei uma foto de sua mãe com seu pai, quando eram mais novos. Olha”.– Alice estendeu a mão para mim, com um árduo sorriso no rosto. – “Olha como ela se parecia com você!”.
Realmente minha mãe parecia muito comigo. As roupas esportivas, cabelos negros e pele bem branca eram as características das quais eu mais havia puxado.
Na foto ela abraçava meu pai, que de longe dava para ver seus olhos verdes profundos e seu sorriso aberto. Todos diziam que eu havia puxado a ele no sorriso, mas nos olhos infelizmente não tive essa sorte. Eu invejava muito seus olhos, vivia dizendo a ele que um dia, ainda gostaria de trocar meus olhos com os dele, e ele me respondia sarcasticamente:
- “Terá que passar por cima de meu cadáver! Você quer tirar de mim a única qualidade que fez sua mãe se apaixonar!?”.
De uma certa forma ele tinha toda razão! No dia em que minha mãe o conheceu o que mais chamou a atenção dela foram seus lindos olhos; mas hoje, se perguntassem a ela qual a maior qualidade de meu pai, o que fizera ela se apaixonar por ele, ela diria que é seu enorme senso de humor e sua educação perante as mulheres. Para ela, isso eram qualidades que se tornaram essenciais em um homem depois de conhecer meu pai.
- “É sim, ela se parecia muito comigo!” – respondi a Alice.
- “Bem, quando voltarmos do mercado, eu mostrarei mais algumas fotos que tenho deles”.
- “Ta!”.
Alice pediu a Pietro que pegasse o guarda chuva e vestisse seu agasalho, o tempo estava bem negro lá fora.
- “Lizz, acho melhor eu te emprestar uma blusa de frio minha, enquanto não comprarmos mais agasalhos a você!”.
Eu não queria ter que vestir um agasalho de Alice, não me sentia intima o suficiente dela para pegar coisas emprestadas! Estava realmente frio lá fora, um frio que eu não conseguia nem descrever, comparados aos do Brasil.
Entramos no carro, depois de empurrar uma grossa camada de gelo que cobria suas portas. Alice deu partida, e o carro não respondeu, ela tentou mais umas sete vezes, e nada do carro funcionar.
- “Bem, era o que eu imaginava. O motor do carro congelou! Eu esqueci de colocá-lo para funcionar uma hora antes de sair”.
Eu não sabia que isso era possível, mas de tudo que passei nesses últimos dias, eu esperava qualquer coisa.
- “Teremos que ir a pé!” – Alice parecia um tanto desapontada com a situação.
- “Hum...”. – foi a única coisa que consegui pronunciar! Eu não queria tirar de Alice mais qualquer perspectiva de que aquele passeio pudesse ser uma boa idéia.
Mesmo que eu não considerasse isso realmente um passeio, Alice não pensava como eu.
Descemos do carro com a animação estampada em nossos rostos! Pietro estava tão feliz que foi o ultimo a descer do carro! A caminhada era longa então apressamos nossos passos, depois de uns quinze minutos de caminhada, eu não conseguia sentir mais meus dedos dos pés.
- “É apenas eu, ou vocês também não estão mais sentindo os músculos do pé?”. – A voz de Alice era até um tanto tremula.
- “Posso garantir que não é apenas você!” – respondi gaguejando.
 Eu não havia entendido nenhuma palavra que Pietro havia dito, mas tinha certeza de que ele concordava com nós duas.
Finalmente depois de meia hora de caminhada, chegamos.
O mercado era totalmente diferente do que eu imaginava, era uma grande construção com aparência antiga, meio rústica; seu interior aparentava uma feira, tinha muitas bancas com verduras, legumes, vinhos, queijos, cada banca possuía um cheiro delicioso e diferente.
Estava me sentindo em um mundo completamente diferente, um mundo onde eu não conhecia ninguém e nem ao menos falava a mesma língua. Até Alice parecia diferente da imagem da qual construí em minha mente a seu respeito. A Alice que eu conhecia, que havia começado a me acostumar, não era a mesma Alice que conversava com todos do mercado em francês, não era aquela Alice brincalhona que brincava com os vendedores das bancas; a Alice que havia começado a me acostumar era a preocupada, a meiga que fazia de tudo para me agradar.
Me senti um tanto quanto vazia, como se ninguém que estivesse naquele lugar pudesse me entender; nem Alice, que eu nem ao menos conhecia direito. Senti um aperto no peito, saudades daqueles que me amavam, daqueles que me entendiam, daqueles que sabiam o significado de cada olhar meu. Senti uma saudade que nunca ninguém poderá entender, ao menos que já tenha passado por algo parecido; o fato de estar em um lugar onde ninguém realmente te conhece, ou te entende para te confortar.
Alice interrompeu meus pensamentos.
- “Lizz, fique perto de mim, não quero que se perca!”.
Apenas concordei com a cabeça. Pietro deu a mão para mim e sorriu.
Andamos por todo o mercado, e Alice me fez experimentar algumas comidas diferentes.
- “Quem é essa garotinha adorável?” – perguntou um comerciante de vinhos.
Fiquei surpresa, não esperava que ele falasse a minha língua.
- “Esta é a Lizzie, minha afilhada”. – Respondeu Alice.
- “Você fala minha língua? Mais como?” – Eu parecia uma boba, assustada.
Ele riu – “Bem, eu já morei um tempo no Brasil. Ah, que país belo! Vendi muito vinho naquela região”.
- “A que região exatamente você se refere?” – minha curiosidade, falando mais alto como sempre.
- “Santa Catarina. Ah me desculpe, que falta de educação a minha, deixe-me me apresentar, meu nome é Adílio”.
Enquanto Alice fazia as compras, eu e Adílio ficamos conversando. Descobri muitas coisas sobre ele; seu gosto musical era muito bem aguçado, ele era separado e possuía um filho homem que tinha mais ou menos a minha idade, chamado Bernardo. Havia morado dez anos no Brasil e lá conhecera sua esposa da qual teve seu filho. Sua esposa largou dele, pois se apaixonou por um homem francês. Bernardo mora com o pai, e visita a mãe nos finais de semana.
Contei para ele também um pouco sobre minha vida, o porque de vir morar em Paris e meus sonhos, como o de ser uma bailarina reconhecida por todo o mundo; mas depois da morte de meus pais que ainda não havia superado, não tive coragem de continuar a sonhar.
Adílio me disse que não posso desistir de meus sonhos, e que com certeza meus pais, aonde quer que estejam estariam torcendo por mim.
Foi uma conversa muito bacana, e com toda certeza já considerava Adílio um grande amigo.


4. Descobrindo:

Alice havia comprado muitas coisas; verduras, legumes, cereais para Pietro... As sacolas eram todas de papel, pois ela se preocupava muito com a natureza.
A volta para casa foi cansativa, mas não tanto quanto a ida. O frio já não era tão intenso e as sacolas pesadas nos exigia tanto esforço, que nos ajudava a esquentar o sangue. Havia gostado do passeio, por mais que tivera passado frio e carregado sacolas pesadas! Conhecer pessoas novas, conhecer um novo mundo, isso era bom para mim!
Não estava acostumada a sair para fazer compras em supermercados com meus pais, para isso tínhamos a Rose. Eu era muito paparicada, e nunca havia andado tantas ruas a pé, ou carregado grandes sacolas pesadas no frio. Sentia saudade de minha antiga vida! Se acostumar a perder privilégios é uma coisa difícil para quem nasceu com uma criação de mimos.
Apesar de tudo, as novas experiências que estava passando nesses dias, me transformavam em uma nova Lizzie, uma mais simples. Mas o que me causava tormento era que essa nova Lizzie, não era eu, eu me sentia em outro mundo, outra vida.
Ajudei Alice a guardar as compras e subi para meu quarto. Eram exatamente três e meia da tarde, e estava lá eu, deitada em minha cama, olhando para as paredes a procura de algo que possa me entreter. Resolvi ligar o computador e entrar um pouco no MSN. Entrei como offline, e bloqueei todos os meus contados menos o Luan. Poderia ser injusto fazer isso, mas não era por maldade. Eu apenas não queria perguntas, não queria ter que explicar o que havia acontecido e qual era o motivo de meu sumiço.
Amanda diz:
- Amiga, estou com tantas saudades de você! A diretora e professora da escola falaram pra galera que seus pais haviam morrido, e que você estava morando com sua madrinha em Paris! Eu sinto muito! Ontem a Marina passou a tarde toda chorando, ela não se conforma de você não ter se despedido dela! O que faremos sem você agora? Em? O campeonato de balé será daqui a duas semanas. A professora não se conforma em perder sua melhor aluna e competidora! Espero que esteja bem e que me responda quando ficar on! Te amamos. (L) J
Eu não esperava por isso! Sentia tanta saudade delas que meu peito doía! Queria muito respondê-la, dizer a ela que estava bem e que estava online. Mas eu não estava realmente bem na verdade! Falar com ela me faria apenas lembrar das coisas das quais eu sentia saudade; meus amigos, minha casa, minha escola! Estava muito triste em não poder participar do campeonato de balé, aquele era meu sonho, minha chance de me tornar uma bailarina profissional. Mas eu sabia desde o inicio que essas mudanças em minha vida me obrigariam a deixar para trás, coisas das quais eram importantes. A morte de meus pais de uma forma ou de outra, me obrigaram a esquecer meus sonhos. Isso me atormentava, me deixava com raiva. Eles não poderiam ter feito isso comigo!
Levantei da cama, estava com muita raiva e precisava descontar isso de alguma forma. Derrubei todas minhas coisas no chão. Eles não podiam fazer isso comigo, isso era injusto! Minha vida não é e nunca será essa, não importa! Todos os meus sonhos e motivos do qual me mantinham viva, estava morto junto com meus pais. Eles haviam levado tudo com eles, inclusive minha vida!
Eu sei que não é justo julgá-los dessa forma. Eles sempre fizeram tudo para o meu bem e eu jamais teria motivos para julgá-los assim. Sentia-me nesse momento dividida em dois sentimentos; uma raiva ridícula da qual me envergonhava e uma tristeza enorme por não poder sentir novamente, a liberdade de sonhar como antes. Por mais que eu queira, não conseguia me abrir e ser eu mesma.
“- Lizz...? O quê aconteceu por aqui?” O rosto de Alice era de espanto. Seus olhos vasculhavam todo o quarto!
“- Desculpe”. – Foi a única coisa que consegui falar. Não sabia nem ao menos com que cara olhar para ela. Minha atitude havia sido extremamente infantil.
“- Você quer falar sobre isso?”.
Ah não! Não queria que ficasse brava comigo! Eu não estava a fim de falar sobre meus problemas.
“- Desculpe Alice, eu não quero falar sobre isso agora”.
Tinha medo que sua reação fosse de desapontamento, ou que pensasse que não tinha confiança nela. Mas a verdade era que... Não tinha confiança nela!
“- Tudo bem então! Quando precisar, estarei aqui!”.
Apenas concordei com a cabeça.
Eram exatamente seis horas da tarde e já me sentia exausta. Resolvi dormir, o que não era de costume. Normalmente eu sofria de insônia, dormia muito pouco o que era uma briga lá em casa. Rose costumava fazer leite quente e conversar comigo até que pegasse no sono. Eu não tinha mais a presença de Rose para me ajudar, mas o cansaço que tomava conta de mim me fez não necessitar de ajuda para dormir.
Desliguei o computador e deitei em minha nova cama; depois de alguns minutos eu acho, peguei no sono.
Acordei com meu celular tocando, olhei no relógio preso acima da porta e vi que eram exatamente quatro horas da manhã. O Peguei com muito esforço tentando descobrir de quem era o numero. Sem sucesso resolvi atender.
“- Alô?”.
“- Oi querida”. – a voz era de um homem, que parecia estar embriagado.
“- Quem esta falando?”.
“- Não importa! Só queria ouvir sua voz”.
“- Eu... vou desligar!”.
“- Não... por... por favor, Lizzie!”.
Quem era aquele homem? Não poderia ser alguém desconhecido, pois sabia meu nome.
“- Quem esta falando?” – Minhas mãos suavam.
Sentia apenas sua respiração do outro lado da linha. Meu medo foi crescendo e ao mesmo tempo minha ridícula curiosidade. Por mais que meus instintos imploravam para que eu perguntasse novamente quem estava falando, o medo de uma resposta não esperada se apossava de meu interior me fazendo finalmente desligar o celular.
Eram cinco horas da manhã e lá estava eu acordada tentando entender quem e porquê aquele homem havia me ligado, mas nada coerente vinha em minha cabeça. Ninguém de minha família costumava beber, pois minha mãe não suportava bebida. Meu pai às vezes bebia alguns goles de uísque, mas não passava de alguns goles.
Eu não tinha uma família grande, meus avós paternos já haviam morrido e a única que me restava era minha avó materna que morava em um asilo, pois sofria de perda de memória recente e nem ao menos reconhecia a filha. Eu tinha uma tia por parte de pai que morava na Argentina, era uma milionária metida, que nem ao menos lembrava da existência da família, já minha mãe era filha única. Alice era o parente mais normal que conhecia.
Minha mente vasculhava qualquer parente distante, qualquer pista de quem poria ter feito essa ligação para mim! Com certeza era alguém que me amava, pois se não, não perderia seu tempo ligando apenas para ouvir minha voz. Enquanto me questionava, as horas iam se passando, até finalmente o sol surgir.
Resolvi tentar pegar no sono, antes que Alice resolvesse me acordar. Fechei os olhos e comecei a prestar atenção no barulho lá embaixo. Com certeza era Alice preparando o café da manhã. Ela não era de ficar muito tempo na cama, então levantava junto com o sol.
O telefone lá embaixo tocou, e Alice atendeu. Não entendia nenhuma palavra que ela dizia, pois falava em Francês. Sua voz era tranqüila e baixa, acho que estava com medo de acordar Pietro. Após algum tempo, ela desligou e ouvi outro barulho de alguém descendo a escada.
“- Maman!”. – Pietro chamava.
“- Pietro, il est trop tot, retourner au lit”. (Pietro é muito cedo, volte para a cama.). – Respondeu Alice, com medo de me acordar agora.
Pietro ligou a televisão, não respondendo mais a Alice. Então resolvi me concentrar no som do desenho animado. Peguei no sono.
Acordei eram dez horas, resolvi levantar. Tentei esquecer o ocorrido na madrugada, já tinha problemas suficientes em minha mente. Não queria ter que me preocupar com mais um!
Peguei a primeira roupa que vi pela frente, escovei meus dentes, prendi o cabelo em um rabo alto e desci.
“- Bom dia bela adormecida!” – Alice me recepciona com um lindo sorriso e um tom de ironia na voz.
“- Bom dia! Desculpa por dormir até tão tarde!”.
“- Você não tem que se desculpar, pode acordar a hora que quiser! Alem do mais, tem que aproveitar, pois daqui a algumas semanas você começará a ir à escola”.
Essa resposta de Alice me embrulhou o estômago! Ir a escola para mim significaria aceitar de vez aquela minha nova vida, e eu não estava preparada para isso. Não sabia falar Francês e tinha medo de como seria tratada pelos outros alunos.
“- Mas... eu nem sei falar Francês!” – Tentei arranjar um pretexto para adiar essa idéia de Alice.
“- Fique tranqüila, achei uma escola pública aqui perto, que esta acostumada com estrangeiros. Eles ficaram felizes com a idéia de sua ida para lá”.
O quê? Escola publica? Eu nunca havia estudado em uma escola pública, sempre ouvi falar que só tinham encrenqueiros! Eu nunca conseguiria me enturmar! Essa idéia de Alice estava me deixando até sem fome, eu sei que é errado querer exigir dela uma escola particular, ou pedir que não me colocasse na escola! Mas isso não era certo. Eu sabia que Alice não era rica, e que com o tempo, serei obrigada a deixar mimos de uma adolescente rica para traz. Mas não estava preparada para isso!
“- Hum!” – Respondi, e fui em direção à cozinha.
“- Deixei a mesa do café da manhã ainda armada, para você comer!”.
“- Obrigada!”.
“- Olha Lizz, eu sei que não gostou da idéia de ter que estudar é tudo muito novo para você, eu imagino que deve ser difícil ter que aceitar amigos novos, tudo novo. Eu sinto muito!”.
Não queria deixá-la triste, então resolvi contornar a história.
“- Não! Eu gostei da idéia, só estou meio dormindo ainda”.
“- Hum”.
Eu sabia que Alice não havia acreditado em minha desculpa esfarrapada. Mas preferia acreditar que sim.
Comi rápido, para não atrasar o trabalho de Alice, ela já estava preparando o almoço então não quis ser um estorvo lá na cozinha.
Levantei e coloquei minha xícara na pia, me retirei da cozinha e fui assistir televisão com Pietro.
“- Bonne journeé!”. (Bom dia!)- Essa era uma das poucas palavras que sabia falar em Francês.
“- Bonne journeé Lizzie”.
Pietro estava assistindo bob esponja! Eu adoro bob esponja! Tentei entender o que o desenho falava, mas tinha sucesso em apenas algumas falas.
Ficamos uns bons tempos sentados no sofá sem trocar nenhum olhar e nenhuma palavra, Pietro ria em algumas cenas, me fazendo rir discretamente também. Alice entrou na sala, olhou para nós dois e sorriu, acho que estava feliz por eu estar tentando interagir com Pietro.
“- O almoço esta pronto!”. – “Lê déjeuner est prêt!” – Alice teve que dizer a mesma frase em duas línguas diferentes. Fiquei pensando comigo mesma, até quando ela teria que se dar a esse trabalho. Fiquei com pena.
Levantei e me direcionei a cozinha; Pietro continuou sentado até Alice chamá-lo novamente. Sentamos a mesa, e Alice propôs uma oração silenciosa. Pedi pela alma de meus pais, para que eles estejam felizes e bem, aonde quer que estejam.
Senti o bolso de minha calça vibrar. Era meu celular! O medo voltou a tomar posse de meu corpo, estava com medo de ser novamente aquele homem da madrugada.
Alice abriu os olhos e olhou com descontentamento para mim, acho que ela achou uma grosseria interromper o momento de oração.
“- Quem será? Isso lá é hora de ligar!”. – Alice estava um tanto quanto nervosa.
“- Melhor não atender!” – Tentei evitar mais um motivo de descontentamento de sua parte.
“- Não querida, pode atender, quem sabe é alguma amiga sua a procura de notícias!”.
Tentei excluir a hipótese de ser aquele homem, me retirei da cozinha e atendi o celular.
“- Alô?” – minha voz era trêmula.
“- Oi, com quem eu falo?”.
“- Com Lizzie Bueno”.
“- Oi Lizz, desculpa te ligar a essa hora, é que foi o único horário que pude ligar! Sou eu Luan!”.
A vergonha tomou lugar do medo.
“- Ah, oi! Não precisa pedir desculpas”.
“- Então, você não esqueceu do nosso encontro hoje, esqueceu?”.
Na verdade, eu havia esquecido! Mas não queria demonstrar isso a ele. Nem ao menos havia pedido a Alice se poderia ir a esse encontro, não sabia o que dizer!
“- Claro que não esqueci, mas não sei se vou poder ir!”.
“- Porquê não?”.
Não queria dizer a ele que não havia pedido permissão a minha madrinha, seria um mico! Então resolvi inventar uma desculpa.
“- Ah, é que eu combinei de sair com minha madrinha hoje à noite”.
“- Então você não vai?”. – sua voz era triste.
“- À tarde eu te ligo, vou ver se consigo desmarcar com ela”.
“- Ok então! Me desculpe novamente! Ficarei esperando sua ligação em”.
“- Ok! Tenho que desligar, beijos!”.
“- Beijos! Tchau!”.
“- Tchau!”.
Fiquei esperando com que ele desligasse primeiro, mas reparei que ele também esperava que eu desligasse, então resolvi desligar.
Voltei à cozinha e me sentei rezando para que Alice não me perguntasse quem era que havia ligado.
“- Quem era no celular?”.
Meu coração acelerou. Ou eu contava para ela agora sobre Luan, ou não poderia ir ao encontro.
“- Bem, era um amigo!”.
“- Hum”.– Essa foi à única resposta.
O silêncio tomou conta do ambiente, tentei tomar coragem para tocar no assunto sobre o encontro.
“- Alice”.
“- Oi”.
“- Sabe, esse meu amigo veio passar as férias aqui em Paris!”.
“- Que legal!”.
“- Ele me chamou pra dar uma volta”.
Alice demorou um tempo, até finalmente responder.
“- Mas aonde?”.
“- Ah, o pai dele é dono de um restaurante chamado Lasserre”.
“- Hum, é um bom restaurante. Já fui muitas vezes lá!”.
“- Hoje de tardezinha”.
“- Quem irá pagar?”.
Me senti constrangida com essa pergunta. Eu não havia pensado nisso! Minhas bochechas rosaram.
 “- Ah, acho que ele”.
Na verdade, nós dois não havíamos conversado sobre isso. Comecei a achar esse encontro, uma má idéia! O assunto se deu por encerrado, e assim terminamos o almoço. Ofereci-me a lavar a louça, mas Alice recusou, então resolvi enxugá-la.
Em meu quarto novamente não sabia mais o que fazer, aquela minha nova vida estava se tornando entediante! Sentia muita falta dos meus amigos e minha antiga vida, onde sempre tinha algo para fazer; não algum serviço, pois eu não colaborava nos afazeres domésticos, mas algum lugar aonde ir ou algum shopping para visitar.
Liguei o computador novamente, torcendo para que o Luan estivesse online. Não queria ter que ligar para ele era muito mais constrangedor! Falar pelo MSN era mais fácil e prático.
Cinqüenta pessoas online, e nenhuma que realmente me interessava! Bem, tinha algumas de minhas amigas, mas ainda não tinha forças e nem cabeça para conversar com elas. Deixei meu status como ausente torcendo para que não me chamassem, mas para meu descontentamento a Gabi me chamou.
Gabi diz:
“- Então é assim! Me deixa falando sozinha aquele dia e acha que vai se livrar de mim?” L.
Lizz diz:
"- Desculpa amiga, é que não estou muito bem para falar!".
Gabi diz:
"- É, eu imaginava! Eu estou tão mal com a sua partida. Não apenas eu, mas todas as garotas! A ridícula da Angelina saiu falando mal de você para a escola toda, dizendo que você era falsa e esquecia dos amigos muito rápido! Ah desculpa estar te contando essas coisas amiga! Mas sabe, você era a mais popular do colégio e agora que você foi embora, todos correm atrás dela como tontos, e ela pegou a sua vaga no concurso de balé".
Aquela noticia não era nenhuma novidade para mim, a Angelina sempre fora daquele jeito, egoísta e malvada! Mas o que realmente me deixou transtornada foi o fato dela ter pegado minha vaga no concurso de balé. Eu nunca esperaria que ela fosse tão baixa! Bem, não que eu fosse participar do concurso, mas ela não tinha esse direito! Eu que sempre ajudei a bancar a roupa e sapatilha das garotas. Eu merecia isso muito mais do que ela! Isso era um absurdo!
Aquela noticia já havia sido o bastante para acabar com meu dia e destruir qualquer esperança minha de continuar a ser uma bailarina! Eu não tinha mais condições para isso, meu pai havia deixado uma grande herança para mim, mas Alice não me deixaria usá-la para qualquer coisa até meus dezoito anos. Acho que ela tem medo de que eu necessite no futuro.
Lizz diz:
“- Hum!” - Não pensei em uma resposta melhor! Não queria começar uma briga mesmo que meus instintos gritassem para que eu xingasse a Angelina. “- Amor, tenho que sair! Depois a gente se fala, beijos”.
Gabi diz:
“- Mas espere um pouco, eu não terminei de te contar tudo que esta acontecendo na escola! A diretora esses dias estava conversando com um homem, que perguntava muito por você”.
O quê? Será aquele homem que havia ligado para mim na madrugada? Quem era ele? O que ele queria comigo? Aquele medo novamente enterrado em minha garganta me fazia sentir falta de ar.
Lizz diz:
“- Quem era? O que ele queria saber? Como ele era?”.
Gabi diz:
“- Calma Lizz, você me parece um tanto quanto preocupada! O que esta acontecendo?”.
Não queria comentar nada sobre o telefonema para Gabriela, mesmo sendo muito minha amiga, eu sabia que ela não teria a capacidade de ficar quieta e não contar para ninguém! Não queria virar um assunto no colégio, ou pior, não queria que esse assunto ultrapassasse as paredes da diretoria! Ela poderia muito bem querer se intrometer ainda mais no assunto.
Lizz diz:
“- Ah não é nada! É que eu queria saber o que um homem fazia a minha procura no colégio. Fiquei assustada! Só isso!”.
Gabi diz:
“- Hum!”.
Eu sabia que a Gabi não havia se dado por satisfeita com a minha resposta e que com certeza nem havia acreditado nela. Mas eu preferia fingir que ela acreditava.
Lizz diz:
“- Gabi, eu realmente preciso sair agora! Depois nós nos falamos. Beijos!”.
Desliguei o computador antes que Gabi me aparecesse com mais alguma novidade indesejada. Já eram novidades demais em apenas um dia!
A morte de meus pais não era mais minha preocupação principal. Para falar a verdade, já ocupava um espaço bem menor em minha mente. Minha nova vida trazia surpresas e uma realidade da qual eu não estava preparada e nem queria receber.
A vida é uma caixinha de surpresas, e nesse momento eu realmente acreditava nisso!
Estava tão afundada em pensamentos, que havia esquecido do encontro com Luan. O que fez meu estômago revirar.
Estava com muito medo e Alice havia tocado em um assunto do qual havia me deixado realmente preocupada! “Quem irá pagar?”.
É lógico que eu não iria pedir nenhum tostão para Alice, ela havia acabado de tomar posse de minha guarda e eu já estaria dando gastos a ela, uma mãe solteira que não havia muito dinheiro para gastar com coisas desnecessárias.
Eram três e meia da tarde e a falta de coragem não me deixava ligar para Luan. Isso já estava me deixando atormentada! Tantas perguntas reviravam minha cabeça e a preocupação de quem irá pagar pelo jantar me deixava com mais medo ainda. Eu não podia tocar nesse assunto sem que parecesse uma pergunta indiscreta e constrangedora. Eu nunca tive que me preocupar com esse tipo de questão em toda minha vida. Nunca havia passado pela minha cabeça que aqui estaria eu, preocupada com a conta de um misero jantar.
Eu realmente não era mais a mesma!
Peguei o celular e com os dedos tremendo retornei a ligação de Luan.
“- Alô?” – minha voz estava horrível! Parecia que eu estava fazendo uma ligação para o inferno ou algo parecido.
“- Oi? Quem fala?”.
Aquela não era a voz de Luan!  Será que eu havia ligado para o numero errado? Impossível.
“- Me desculpe, mas eu poderia falar com o Luan? Aqui quem fala é a Lizzie, uma amiga dele!”.
“- Ah sim, Lizzie! Oi, eu sou o pai dele, meu nome é Rodrigo. Vocês viram jantar em meu restaurante à noite?”.
“- Ah, oi! Acho que sim”. – esse era o momento do qual eu deveria tocar no assunto do dinheiro? Acho que não!
“- Como assim acha? Ou sim, ou não! (risos) Me desculpe querida eu devo estar te assustando! Mas vem sim! Eu farei um belo jantar aos dois, cortesia da casa”.
Cortesia da casa não significa que será tudo de graça? Resolvi tocar no assunto do pagamento, de uma forma discreta.
“- Quanto eu devo trazer de dinheiro?”.
“- (risos) Nada querida, é cortesia da casa”.
Aquela resposta havia tirado um grande peso de minhas costas, respirei aliviada.
“- Espere um pouco, deixe-me chamar o Luan”.
Tinha muito barulho no fundo, acho que eles estavam no restaurante.
“- Oi querida! É o Luan agora. Desculpe se meu pai te assustou, ele é assim mesmo, espontâneo”. – a voz de Luan era alegre, como se estivesse muito feliz pela ligação.
“- Oi! Não precisa se desculpar! Eu gostei dele, muito simpático. Ah me desculpe pela demora da ligação, eu estava... ocupada e só agora pude ligar”. – Minha voz me entregava. Eu realmente não sabia mentir.
“- Eu já estava preocupada. Achei que não fosse mais vir jantar. Não fique com medo Lizz, não quero que pense que sou um safado que quer trazer garotas para jantar com segundas intenções. Nós somos apenas amigos, não precisa nem considerar isso um encontro, mas sim, apenas um jantar entre amigos”.
Aquela sua resposta havia me deixado um tanto quanto triste, não sei, mas eu até queria que ele tivesse segundas intenções nesse encontro. Ah meu Deus, o que eu estou falando!
“- (risos) Sim, apenas um jantar entre amigos!”.
“- (risos) Então? Que horas você vem?”.
“- Hum, que horas você quer que eu venha?”.
“- Por mim pode ser até agora! Nós podemos tomar um sorvete antes do jantar”.
Não sabia se era uma boa idéia. Alice não ia permitir que eu andasse pela cidade com Luan. Mas achei melhor esquecer um pouco tantas duvidas.
“- Ok! Estarei ai daqui à uma hora”.
“- Estarei te esperando!”.
“- Vou desligar, para me arrumar! Beijos, até daqui a pouco”.
“- Beijos, tchau!”.
Desliguei o celular e desci as escadarias, a procura de Alice.
“- Quanta euforia! O que foi?” - Alice me perguntou com um ar sarcástico.
Não queria parecer eufórica com o encontro, isso poderia estragar tudo, e Alice poderia pensar que tinha mais que um jantar atrás disso tudo.
“- Ah, é que eu... Eufórica? Da onde você tirou isso (risos)”.- Tentei disfarçar o mais rápido possível.
“- Hum! Então me diga, o que a senhorita quer?”.
“- Ah, nada demais, só queria saber que horas eu irei para o Lasserre!”.
“- Hum... havia esquecido! Bem, vou ter que ver se o carro esta pegando, porquê com a neve lá fora acho que seu motor ainda esta congelado. Que horas você quer ir?”.
“- Ah, eu combinei de encontrá-lo as quatro e meia”.
“- Então vá se aprontar, e quando quiser ir me avise”.
Apenas sorri para Alice, e subi as escadarias tentando disfarçar o entusiasmo que inundava meu corpo.
“- E agora? Que roupa eu vou!” – perguntei a mim mesma, em voz alta.
Após o banho fiquei pensando. Não sabia qual era a roupa apropriada para um encontro, nunca havia ido a nenhum.
Estava muito fria lá fora e minhas roupas eram todas apropriadas para o calor e o friozinho de Rio Preto. Enquanto pensava em todas minhas roupas, lembrei de um casaco de pelo azul que havia ganhado de minha mãe em uma viagem que havíamos feito aos Eua.
Nós havíamos viajado para lá em uma época de verão, então não foi necessário usar uma roupa apropriada para o frio, mas minha mãe havia visto em uma lojinha de lá um casaco de pelo que parecia de um urso, mas no tom azul. Eu me lembro que no dia, não queria prová-lo, pois achei um absurdo comprá-lo em uma época de verão, mas sua insistência havia me feito ceder.
Vesti uma blusinha branca de mangas compridas com babados e por cima o casaco azul. Achei que a calça jeans não seria o suficiente para aquele frio que fazia lá fora, na ida ao supermercado com Alice minhas pernas haviam praticamente congelado. Então, para não sofrer novamente, resolvi colocar por baixo da calça jeans uma calça legue, como eu era magra, não iria fazer muita diferença. Coloquei um tênis branco, escovei meus cabelos e o prendi para traz com uma tiara de strass que havia ganhado de meu pai. Coloquei um brinco e uma pulseira de strass para combinar com a tiara e passei um gloss e o perfume da Gabriela Sabatini que havia ganhado também na viagem aos Eua.
“- Pronto!” – Disse feliz a mim mesma.
Desci as escadas, pois já eram quatro e quinze e disse a Alice que já estava pronta.
“- Nossa, que linda você esta querida!” – Alice não parecia feliz com meu encontro, mas parecia estar sendo sincera no que disse.
“- Obrigada!”.
“- Você já quer ir?”.
“- Pode ser”.
Alice chamou Pietro, que estava brincando de carrinho no chão da sala. Ele olhou para mim e sorrio, retribui seu sorriso.
Ambos colocaram seus casacos, que estavam pendurados pertos a porta e saímos.
O frio era insuportável, mas minha animação e felicidade era tamanha que aquele era um detalhe insignificante.
Alice entrou no carro, e tentou ligá-lo. Uma vez, duas, três, e nada do carro pegar.
Minha felicidade estava sendo levada de mim e em seu lugar, uma tristeza. Parece que nada dava certo em minha vida!
“- Desculpa Lizz, mas me parece que o carro realmente não quer pegar” - Alice parecia desapontada, triste por mim.
“- Ah, deixa pra lá! Obrigada mesmo assim”. – Eu não estava acreditando que não iria mais no jantar, estava com raiva!
Entramos em casa novamente, e eu resolvi ligar para o Luan.
“- Alô?”.
“- Lizz, onde você está? Já esta vindo para cá?”.
“- Então, é sobre isso que eu gostaria de falar... não posso mais ir ao jantar”. – não queria ter que dar essa notícia a ele!
“- Por quê não?” - Seu tom de voz havia mudado, era baixo agora. Estava com medo de que ele estivesse bravo comigo.
“- É que aconteceu um problema com o carro da minha madrinha, sabe, o frio fez com que o motor dele congelasse”.
“-Só por isso? Eu te busco!”.
Agora minha tristeza havia sido substituída por um pouco de vergonha misturado com alegria.
“-Ah, não sei se é uma boa idéia! Tirar seu pai do trabalho dele...”.
“- (risos) Não preciso tirar ele do trabalho, eu posso pedir a algum garçom”.
“- Espera, deixe-me perguntar para minha madrinha”.
“-Ok”.
Eu estava com medo de sua resposta, pois pra falar a verdade tinha quase certeza que seria não! Ela não deixaria que eu fosse a um jantar, com um desconhecido, no carro de um desconhecido.
“- Alice...?”.
“-Oi”.
“-Então, meu amigo falou que ele pode vir me buscar”.
“- Ah querida, acho que não é uma boa idéia!”.
“- Por quê não?”.
“- Por quê eu não conheço esse garoto, não sei nada sobre ele, você é nova aqui em Paris, não sabe se defender sozinha e se te acontecer alguma coisa?” - Alice parecia estar decidida em sua resposta.
“- Mas Alice, por favor, sabe, eu preciso sair para esquecer um pouco tudo que esta acontecendo...” - Resolvi jogar sujo.
“- Desculpa ter que te falar isso querida, eu sei que você esta passando por um momento difícil, mas é para o seu próprio bem! Você não vai sair de casa enquanto não se acostumar com a cidade”.
“- Mas... como eu vou me acostumar se não sair um pouco?”.
“- Você terá muito tempo para sair, quando começar as suas aulas! Por enquanto você só sai comigo!”.
Aquela frase de Alice havia me dado uma grande idéia! Então quer dizer que eu só posso sair com ela? Hum.
“- Luan, minha madrinha só me deixa ir, se ela for comigo até o restaurante e depois o garçom trazer ela de volta!” – eu sabia que estava abusando da bondade de Luan, mas era o único jeito! Eu não sabia se ele aceitaria tamanha folga de minha parte, se fosse eu, diria não.
“- Hum... esta bem!”.
Eu não estava acreditando, ele estava realmente determinado em jantar comigo!
“- Aonde você mora?”.
“- Espera vou perguntar para minha madrinha”.
“- Alice, meu amigo disse que você pode vir também, até o restaurante! Se isso for te deixar mais tranqüila”.
Diga sim, sim, sim!
“-Lizz, eu não posso aceitar isso, seria muita folga da minha parte! Porquê vocês não combinam outro dia?” - os olhos dela pediam clemência.
Achei que era melhor eu desistir, realmente não era pra ser! Já havia jogado todas minhas armas para cima de Alice e procurado várias soluções, mas nada a deixava feliz. Melhor esquecer esse jantar e remarcá-lo.
“- Luan, não vai dar mesmo! Minha madrinha esta decidida em sua resposta. Podemos remarcar para outro dia?” – estava torcendo para que ele não se sentisse magoado, e aceitasse minha proposta.
“- Ah... se não da mesmo! Claro, eu te ligo para remarcarmos” – a voz dele era de desânimo.
“- Então tudo bem! Vou desligar, beijos”.
“-Beijos, tchau!”.
“- Tchau”.
Desliguei o celular muito triste, a vontade que eu tinha era ir escondida a esse jantar, resolvi subir ao meu quarto antes que essa idéia maluca se tornasse real.
“- Lizz, eu sinto muito! Prometo que da próxima vez você vai”.
Alice estava realmente decepcionada pelo jeito, ela deve ter percebido meu rosto de decepção.
“-Ok, eu vou subir para me trocar”.
Toda aquela produção para nada! Estava muito triste. A idéia de ir escondido aquele jantar não saia de minha mente, pelo contrário, eu me tornava cada vez mais fixa nela. Resolvi não me trocar, apenas sentei em minha cama e tentei ser realista comigo mesma.
“- Você esta louca Lizzie Bueno, seria uma decepção para sua tia se ela descobrisse que você fugiu para encontrar um garoto, alem do mais, você nunca havia feito nada parecido antes...”.
Isso! Eu nunca havia feito nada parecido antes, sempre fui àquela garota sem graça, patricinha rica e medrosa que nunca havia se aventurado antes na vida! Isso era um absurdo! Eu já tinha 15 anos, já estava mais do que na hora de fazer algo inusitado, algo que me fizesse sentir a adrenalina jorrar no corpo.
Eu sei que poderia me arrepender muito nessa minha atitude, que poderia mostrar a Alice uma Lizzie da qual ela não conhecia, para falar a verdade, uma Lizzie que realmente nem existia. Mas Dane-se! Minha vida estava totalmente fora de controle mesmo, nada mais fazia sentido...!
Eu irei a esse jantar.
Com muita confiança peguei o celular e liguei para o Luan.
“- Alô, então Luan, eu vou ao jantar sim! Só me diga o endereço!”. – o quê eu estava fazendo, como eu era burra! Eu nem ao menos sei falar francês! Quem dirá encontrar um restaurante em uma cidade abarrotada de pessoas e placas em uma língua da qual eu nem ao menos conhecia direito. – “Luan, você não poderia me buscar? Minha tia não vai poder me levar e eu não sei andar pela cidade sozinha!”.
“- Bem, eu precisaria do endereço Lizz”.
E agora? Eu não fazia a mínima idéia da onde eu morava! Mais que droga!
“- Espere um pouco, daqui a pouco eu te ligo”.
“-Ok”.
Bem, agora eu tenho que descer as escadas e procurar qualquer conta de luz, água, telefone que contenha o endereço daqui!
Eram exatamente oito e meia da noite e Pietro já estava dormindo! Alice estava tomando um gole de café na cozinha e pelo jeito também estava indo para a cama.
Fiquei escondida até perceber que o caminho estava livre. Alice havia subido as escadas e entrado em seu quarto, resolvi esperar para me certificar de que ela estava dormindo.
“- Pronto, tudo certo, agora só falta o endereço”.
Enquanto andava com passos leves até a sala senti meu celular vibrar em meu bolso.
Era o Luan.
Será que ele havia desistido de nosso encontro? Toda a adrenalina do momento havia sido tomada por uma pontada de tristeza.
“- Oi Luan” – disse o mais baixo possível.
“- Oi, então Lizz, eu consegui achar o endereço de sua casa”.
Não acredito! Parece que todas as cartas estavam viradas a mim agora.
“- Sério? Como?”.
“- A sua madrinha se chama Alice?”.
“- Sim, mas como você sabe?”.
“- Tem um homem chamado Adílio que vende seus vinhos para o restaurante, ele conhece sua tia e quando eu disse seu nome, ele te reconheceu e me passou o endereço!”.
Como esse mundo era pequeno! Quem diria que Adílio seria a salvação de meu problema! Mas, pensando melhor, eu estou ferrada! Adílio poderia muito bem contar a minha madrinha que eu me encontrei com o Luan. Isso poderia ser o fim de nós dois!
Resolvi deixar todas as possibilidades negativas do encontro e entrar de cabeça.
“- Ah que ótimo! Então você já esta vindo?”.
“- Sim, daqui a pouco estou ai!”.
Eu não conseguia acreditar que a primeira vez que eu fazia uma burrada em minha vida, uma coisa da qual eu poderia me arrepender, isso poderia dar tão certo! Eu sabia que mesmo que todas as cartas estivessem viradas para mim, mesmo que estivesse dando tudo certo, a possibilidade de Alice descobrir era quase certa. Mas esse era um risco que eu tinha que sofrer.
Resolvi esperar por Luan lá fora, não seria uma boa ele tocar a campainha ou buzinar, isso poderia acordar Alice.
Peguei a chave que estava pendurada do lado dos casacos de frio perto a porta e sai.
O frio era intenso, não conseguia nem ao menos me movimentar direito. Talvez fosse a falta de costume, não estava acostumada aquele frio tão forte!
Passavam-se uns quinze minutos quando finalmente Luan surge com um Astra preto e para em frente a minha casa. Fiquei um tanto insegura em me aproximar, não sabia se aquela minha atitude estava sendo a certa, tinha muito medo das conseqüências que aquilo poderia me trazer; mas resolvi esquecer de tudo, sorrir e entrar no carro.
“- Oi Lizz” – Luan me olhou um tanto envergonhado.
“- Oi”.– dei-lhe um meio sorriso.
Ficamos em silencio por uns três minutos, muito longos para mim! Quando finalmente Luan resolveu puxar assunto.
“- Como você convenceu sua madrinha a deixar você vir?”.
Pronto! E agora? O quê eu vou responder a ele? Eu não poderia lhe contar a verdade, talvez ele achasse um absurdo. Resolvi continuar com a mentira.
“- Ah, tive que dar uma choradinha!”. – sorri.
“- (risos) Bem, às vezes isso é necessário!”.
“- Sim... Então, seu pai cozinha bem?” - que pergunta idiota essa minha! Não Lizzie Bueno, ele não cozinha bem, ele apenas é gourmet de um restaurante.
“- (risos) Sim, ele cozinha muito bem! Bem, para mim ele é o melhor de toda Paris, não pelo fato de ser meu pai, mas por ele ser realmente muito bom”.
“- Hum! Tenho certeza que sim”.
“- Você nunca havia andado por Paris antes?” - Luan me olhou com curiosidade.
“- Não... bem, eu já fui até o mercado com minha madrinha, mas não era muito longe de casa”.
“- Não sabe o que esta perdendo! Depois do jantar, você quer dar uma volta? Não iremos muito longe”.
O certo seria eu não aceitar, o jantar já seria uma burrada suficiente, não devia andar por uma cidade conhecida, com um garoto que mal conhecia. Mas como sempre, minha curiosidade e ansiedade de conhecer e me surpreender foram maiores que meu medo! Meu lado errado e arteiro, do qual eu não conhecia muito bem até a morte de meus pais, me fizeram dar uma resposta direta sem ao menos pensar.
“- Claro!” - meu tom de voz era eufórico.
Luan sorriu para mim, e o silêncio tomou novamente conta do ambiente. Aproveitei para olhar pela janela os lugares e luzes deslumbrantes que Paris me proporcionava. Mesmo com tanto dinheiro que sempre tive, nunca havia visitado lugar tão belo como esse, meus pais sempre trabalharam muito e nunca tiveram tempo de viajar comigo, sempre iam aos lugares só os dois, sempre para tratar de negócios.
Ruas abarrotadas de carros e pessoas, construções rústicas e ao mesmo tempo modernas e clássicas. Luzes e restaurantes chiques e alguns simples, mas que mesmo assim possuíam sua beleza e classe. Todo o medo e insegurança que continha dentro de mim, fora substituído por uma alegria e deslumbro dos lugares e pessoas das quais passavam diante de meus olhos.
Estava lá eu, tão hipnotizada com tanta novidade que nem ao menos percebi o carro parar, apenas quando Luan me chamou.
“- Lizz, chegamos!”.
Desci do carro ainda deslumbrada e olhei a minha volta, uma multidão de pessoas. Nunca havia visto tantas pessoas em um mesmo lugar! Paris era uma cidade não apenas de moradores em suas vidinhas de sempre, mas sim uma cidade de turismo, uma cidade de lojas e comércios de seus vários tipos deslumbrantes. Pessoas de suas várias etnias e classes sociais rondavam e transitavam sob as calçadas, carros conhecidos e muitos só vistos por mim na televisão...
“- Lizz, esta me ouvindo?”.
Eu não estava ouvindo nenhuma palavra que Luan me dizia, ele agora não era mais o centro das atenções em minha mente, estava tão deslumbrada com tudo que via, que havia esquecido de todos os problemas que havia passado nessa semana, e todos os que teriam que enfrentar ainda pela frente, pela minha desobediência.
Luan percebeu meu deslumbro e apenas segurou minha mão. Ao sentir seus dedos entrelaçarem aos meus, finalmente olhei para ele.
“- Ah, desculpe Luan, é que estou muito deslumbrada com tudo isso”.
“- É, eu percebi (risos), mas pode ter certeza que você terá muito tempo para se deslumbrar com os olhos; vamos agora que eu lhe mostrarei a melhor comida que você já provou em toda a sua vida”. – seu tom de voz era muito confiante, me fazendo realmente acreditar em sua proposta.
Entramos no restaurante. Ele era muito chique, rico em detalhes, luzes, luminárias, cortinas enormes de cor vinho que cobriam as grandes janelas que cercavam todo o restaurante. Tinha muitas pessoas e muitos garçons desesperados a atender as mesas. A comida deveria ser muito boa, pois o cheiro era maravilhoso.
“- Vem por aqui”. – Luan me puxou pela mão.
Nos sentamos em uma mesa localizada perto da cozinha, as cadeiras eram todas almofadadas e as toalhas de um tom parecido com elas, os pratos e os talheres eram deslumbrantes de tão limpos e davam até pena de usá-los.  Todos os garçons que passavam por lá nos olhavam e sorriam cumprimentando o Luan. Parecíamos dois famosos visitando um restaurante na cidade.
 “- Você já viu algum famoso andando pelas ruas da cidade?”.
“- Ah, sim, meu pai disse que alguns já vieram comer aqui”.
Luan acendeu o candelabro que tinha ao centro da mesa e estendeu o guardanapo em seu colo. Imitei seu gesto.
“- Quando você me disse que seu pai era dono de um restaurante eu não imaginava que fosse um restaurante tão chique”.
“- Ah, eu não me importo com a beleza dele nem com o quanto ele é chique, apenas gosto de comer aqui”. – Luan parecia muito sincero.
Eu gostava muito desse seu jeito de ser, mas apenas não entendia o porquê ele parecia tão simples enquanto tinha tanto para aproveitar. Com aquele restaurante, seu pai não escondia o quanto dinheiro havia gastado em sua construção, que com certeza não era pouco! Mas Luan, tão simples, viajou na classe econômica do Brasil para cá junto comigo e não se gabou e nem ressaltou todo o dinheiro que tinha.
Eu, sempre gostei de falar sobre o trabalho de meu pai e sobre todas as coisas das quais eu ganhava dele e de minha mãe, sempre gostei de me gabar para minhas amigas e fazer festas em minha grande casa. Eu era tão diferente dele! Sentia-me até um pouco envergonhada.
O garçom se aproximou da mesa e perguntou a nós o que queríamos comer. Luan sorriu para ele.
“- Oi Frederico, como você esta? E sua filha e esposa?”. – Luan citou o nome de seus familiares com uma expressão um tanto quanto de preocupação.
“- A Melissa esta bem melhor, eu e Julie levamos ela ao médico que seu pai nos ofereceu e ele a receitou um medicamento que esta fazendo com que sua tosse melhore! A Julie esta bem, muito mais aliviada agora que nossa filha esta melhor”.
“- Graças a Deus, mande um beijo para as duas”.
Fiquei pasma com a preocupação de Luan perante a família de um simples garçom. Eu nunca me preocupei com os funcionários da fabrica que meu pai chefiava, sempre reclamei de sua secretária por ela ser lerda e não fazer as coisas das quais eu pedia a ela.
Meu pai vivia falando para eu parar de ser tão exigente, que a Nathalia, a secretária, sempre fazia o que estava ao seu alcance para me agradar, mas ela tinha muito serviço para atender a todas as minhas regalias.
Enquanto pensava em minhas atitudes Luan fez seu pedido e me perguntou se eu me importava que ele escolhesse meu pedido também. Eu deixei, e assim o garçom se retirou da mesa.
“- Aposto que vai gostar da comida que sugeri a você! Bem, é uma de minhas favoritas e meus amigos também gostam muito!”.
Pelo fato de Luan não morar em Paris e só ter se mudado agora, pensei que ele não tivesse amigos na cidade, mas parece que eu estava errada.
“- Hum, vamos ver se você consegue agradar meu gosto também (risos). Então Luan, você vai estudar aonde?”.
“- Bem, meu pai quer me colocar em uma escola particular, chama-se Rambuteau Francs Bourgeois, mas tenho que admitir que estou com um pouco de medo, eu não conheço ninguém lá e tenho medo de não me adaptar”.
“- Sim, isso é terrível!”.
“- E você aonde pretende estudar?”.
“- Ah, minha madrinha disse que vai me colocar em uma escola pública, perto de casa, mas eu não estou acostumada em estudar em escolas públicas”.
“- Por quê? Que diferença faz se a escola é pública ou particular? Tem alunos do mesmo jeito!”.
Senti-me uma metida idiota depois da resposta de Luan. Eu tinha que contornar o que eu disse, não queria que ele pensasse que eu fosse uma garota pobre e soberba.
“- Sim, claro... eu não quis dizer isso, é que, eu estou acostumada a estudar em escolas cheias de patricinhas e garotas metidas”. – O que eu estava falando, eu era a mais metida da escola! – “Então vai ser diferente estudar em uma escola aonde não tenha nada disso”.
“- Sim eu entendo! Eu odeio garotas desse tipo!” - Luan fez uma expressão de nojo.
Senti-me envergonhada e ridícula. Como eu pude ser uma dessas garotas das quais eu estava falando mal agora!
“- O jantar esta servido!”.
Olhei em direção ao garçom, que coloca em cima da mesa duas bandejas tampadas, uma para mim e outra para ele. O cheiro era muito bom, sentia uma vontade enorme de abrir as bandejas e comer logo, mas esperei até que Luan abrisse a dele.
“- O que vocês querem beber?”.
“- Bem, já que eu escolhi sua comida, agora acho que pode escolher o que quer beber (risos)”. – Luan olhou para mim e deu uma piscadinha.
Eu sorri também.
“- Bem, eu quero um suco de morango”.
“- Então eu vou beber o de sempre”.- Luan sorriu para o garçom
Este pediu licença e se retirou da mesa.
“- O quê é o de sempre?”. – Perguntei.
“- Coca-cola!”. – Luan olhou para mim e riu.
Ficamos um longo tempo conversando. Enquanto comemos Luan me contou seus sonhos, seus gostos,  sua vida ... Fez me sentir como se eu fizesse realmente parte da sua.
-Então, acho que já falei demais! Conte-me você um pouco sobre sua vida.
Fiquei um pouco desnorteada, não queria contá-lo sobre mim, nem sobre minha vida. Eu era uma pessoa tão diferente dele... Tão diferente do que ele imagina! Não queria decepcioná-lo. Sua visão sobre quem é Lizzie era muito melhor, era uma Lizzie da qual eu queria realmente ser!  Humilde, benfeitora... Mas a Lizzie da qual ele não conhecia, era uma garota mimada, que não pensava em ninguém a não ser em si mesma, e que até mesmo havia enganado sua madrinha para vir a esse jantar.
- Ah, acho que você já sabe o bastante de mim...
- Bem, a única coisa que sei realmente é que seus pais morreram recentemente e que veio do Brasil no interior de São Paulo...  Mas outras coisas consegui notar em você... Consigo perceber pelos seus olhos que é uma garota dedicada, amorosa e que se preocupa muito com todos que te rodeiam.
- E se eu não for o que você realmente pensa?...
- Eu duvido! Esta em seus olhos!
Por um instante realmente acreditei no que Luan me falou, realmente me senti aquela Lizzie cheia de qualidades, o orgulho da mamãe e do papai... Pena que eu nunca fui essa Lizzie; nunca fui o orgulho em comportamento de meus pais. Sempre exigi  deles mais do que devia e me aproveitava de sua ausência constante para pedir a eles coisas absurdamente caras das quais para me fazer feliz, sediam sem pestanejar!
- Bem... Se você diz! – resolvi não contrariá-lo.
- Sim. (risos) Já que terminamos de comer, vamos dar uma voltinha aqui nos arredores do restaurante... Se você quiser é claro.
- Esta bem!
Levantamos e fomos para fora do restaurante. O frio era forte e a neve ainda insistia em cair. Mesmo com o frio intenso e a expeça camada de neve cobrindo todo o chão, a beleza de Paris permanecia intacta! A neve apenas se tornava um atributo para tanta beleza...
Novamente me vi em um transe de contemplação. Meus olhos vagavam todas as ruas até se fixarem em um ponto fixo, a torre Eiffel.
- Sei que não sou belo como Paris, mas você pode se esforçar  um pouco. – Luan olhava para mim com seus olhos radiantes brilhando ainda mais e seu lindo sorriso.
- Me esforçar para quê?
- Para isso... – Luan me puxou com suas mãos macias, passou  suas mãos em meus cabelos e me beijou.
Meu coração parecia sair fora de meu peito, nunca havia sentido sensação como esssa. Nesse momento para mim só existia nós dois. Toda a angustia e tristeza que tomava conta de mim por todos os acontecimentos do qual me fizeram pensar nesses ultimos dias haviam desaparecido.
Quando abri meus olhos percebi que Luan estava olhando para mim com um grande sorriso esbosto em seu rosto. Me senti um pouco envergonhada da situação e por um tempo cheguei a pensar que aquele beijo havia sido fruto de minha imaginação.
Bom, se aquele havia sido fantasioso esse não era, Luan me puxou novamente ou talvez pela primeira vez e me beijou. Desta vez senti uma certa confiança e talvez malícia, o que me fez rir.
- Por quê esta rindo? – perguntou Luan com os olhos  novamente fixos aos meus.
- Nada... costumo rir quando estou muito feliz, ou quando acho algo muito lindo.
- É... Paris é realmente linda!
- Não estou falando de Paris desta vez...
Ele segurou minha mão e me puxou.
- Vamos... quero te mostrar uma coisa.
Me levou a um parque proximo aonde estávamos, e entre algumas arvores fechou meus olhos. Pegou em minha mão e me guiou até um banco, onde me fez sentar.
- Pode olhar. – Disse tirando as mãos de meus olhos.
Me senti como em um romance americano, daquele do qual tudo parece um sonho, um conto de fadas. Um pouco a frente do banco havia um riu completamente congelado e um pouco mais a frente, ao horizonte, conseguiamos ver a cidade com suas luzes brilhantes. Ficamos um tempo adimirando tanta beleza, até que derrepente começou a chover.
Saimos correndo para as ruas rindo de toda a situação, pessoas passavam entre nós com seus guarda chuvas e suas caras de espanto, deviam estar pensamos “ O que esses dois pensam estar fazendo?” alguns metros á frente conseguimos avistar o restaurante. Luan segurou minha mão e então chegamos. Fiquei assustada ao perceber que havia uma viatura da polícia parada em sua frente, Luan soltou minha mão e foi ver o que estava acontecendo. De dentro da viatura saiu um policial e Alice aos prantos. O medo e a vergonha tomou conta de mim. Todos olhavam para mim com cara de espanto e alguns de raiva. Me senti como uma traidora, uma fugitiva.

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