- Lizzie o que você esta fazendo aqui? – Alice estava furiosa.
- Tomando uma fresca? – Não sabia nem o que falar me sentia como uma adolescente rebelde.
- Entre agora na viatura, temos muito que conversar em casa! – Alice virou com raiva e entrou na viatura policial. Olhei para Luan e seu rosto era de espanto, pedi desculpas a ele e entrei na viatura.
O policial ficou um tempo conversando com o pai de Luan até que o acontecimento foi explicado.
Durante o caminho até em casa Alice nem ao menos olhou para mim. Paramos em frente de casa e o policial desceu e abriu a porta da viatura para mim e Alice.
- Da próxima vez, vê se pense bem em suas atitudes mocinha! (francês) – Seu rosto não era bravo, mas sim repreendedor.
- Pode ter certeza que isso não irá se repetir! – Disse Alice brava.
Não sabia o que o policial havia dito a mim, mas de qualquer forma, nem queria saber!
Entramos em casa em silêncio, por um momento pensei que Alice havia desistido de falar comigo; senti-me aliviada. Subi as escadas devagar, um pé pós o outro rezando para que esse silêncio permanecesse por um longo tempo.
- Lizzie, venha cá. Não pense que irá fugir de nossa conversa. – desta vez Alice parecia mais calma que antes.
Ainda em silêncio, desci as escadas com a cabeça baixa.
- Olha eu não queria ter feito isso, mas eu precisava sair um pouco para esfriar a cabeça. Sabe... Esses problemas que estou passando nesses dias, essa vida diferente...
- Como assim essa vida diferente? – Alice me interrompeu.
- Ah... Eu não estou acostumada ficar muito tempo dentro de casa. Lá no Brasil eu saia todos os dias.
- Não estou entendendo Lizzie, você saiu hoje cedo comigo, fomos no mercado... Você chegou não faz nem dois dias...
- Eu sei, eu sei... – Já estava ficando sem paciência. Não queria ter que discutir com Alice, só achava que essa ainda não era à hora dela querer se intrometer em minha vida. Nós nos conhecíamos há tão pouco tempo. – Estou cansada, posso subir? – virei as costas a ela, e comecei a subir as escadas.
- Não! – sua voz era firme e alta.
- Por favor – continuei de costas a ela.
- Venha aqui Lizzie.
O medo e peso na consciência do qual estava carregando desde o restaurante, foi trocado por uma raiva e rebeldia que surgia cada vez mais forte em meus ossos, sem que eu pudesse fazer nada. Quem ela pensava que era para falar exigir algo de mim. Eu nem ao menos a conhecia direito.
Meus pais nunca haviam me repreendido e Rose sempre me tratara como uma criança. Esse modo de agir e falar de Alice, me lembrava apenas aquele homem ridículo e absurdo que me fizera abandonar o Brasil e vir para esse lugar do qual eu nem ao menos sabia a língua local.
- Lizzie, estou mandando que venha até aqui!
Essa já era a ultima gota que faltava para que eu explodisse. Ela não iria mandar em mim e eu não tenho que obedecer a uma mulher da qual nunca fez parte de minha vida até então.
- Quem você pensa que é para falar assim comigo? – as palavras saiam de minha boca com tanta severidade que me fazia gaguejar.
- O que você disse?
Me virei em direção a ela, e olhei diretamente em seus grandes e arregalados olhos azuis.
- Estou querendo dizer que... Você não tem direito de mandar em mim. Você nem ao menos me conhece! Quem você pensa que é! – meus olhos eram fixos nos seus e meu rosto expressava raiva.
- Te conheço o suficiente para saber que é uma garota rebelde e mimada, tão mimada que nem ao menos consegue respeitar quem te cria e te sustenta! – Os olhos de Alice brilhavam como duas estrelas, suas bochechas estavam vermelhas como pimentões e seu rosto expressava indignação e espanto.
- Eu não preciso que me sustente, eu tenho o dinheiro de meu pai. Você não sabe nada sobre mim e a forma como sou ou deixo de ser não tem nada haver com você! – dei as costas para Alice e subi as escadas.
Ao pisar no ultimo degrau que faltava, senti uma mão segurando meu braço com força.
- Escute aqui Lizzie, não sou seu pai, nem sua mãe e muito menos a Rose. Aqui as coisas são muito diferentes. A vida da qual você terá que se adaptar é diferente da qual você esta acostumada. Não sei se você sabe Lizzie, mas as pessoas humildes costumam se adaptar e a aceitar as mudanças que a vida lhes proporciona com paciência e esperteza. Acho que isso que seus pais e Rose não conseguiram te ensinar. Eles criaram uma boneca... Uma boneca de gesso pronta pra quebrar em qualquer falta de cuidado, a minha obrigação é quebrar esse maldito gesso e te transformar em uma mulher de verdade. Que aprende com os erros e respeita todos ao seu redor. Uma mulher de caráter, que trata todos como igual.
Tentei puxar meu braço da mão de Lizzie e ela o segurou com mais força.
- Acho que já passou da hora de você crescer. Você não é mais a garotinha rica de Rio Preto. A propósito, o dinheiro que seus pais deixaram de herança para você, só será entregue, quando completar 18 anos. Espero que até lá você consiga ter caráter e humildade suficiente para fazer bom uso dele! – Ela soltou meu braço.
Minha raiva era tanta que não consegui nem ao menos responder algo a ela, entrei em meu quarto e fechei a porta com tanta força que o eco se espalhou por toda a casa.
No fundo, eu sabia que Alice tinha razão no que disse a mim. Eu era uma garota mimada que só pensava em si mesma a todo tempo. Mas eu não conseguia suportar tanta verdade jogada em mim de uma vez só, Não conseguia acreditar que aquela mulher me conhecia a apenas dois dias e nunca havia feito parte de minha vida, nunca havia acompanhado meu crescimento e visto minha educação, pudesse ter descrições tão concretas e feitas de verdades sobre mim!
Sentia-me um monstro, mas ao mesmo tempo sentia uma raiva insuportável dela... Não apenas dela, mas de todos que haviam feito parte dessa trama. Sentia raiva daquele homem que havia me trazido aqui, da Angelina que havia me ferrado pelas costas e de Alice que havia me dado um choque de realidade.
Deitei na cama e coloquei o travesseiro sobre minha cabeça. Era como se tudo e todos quisessem mudar meu jeito de ser, agir... Como se a vida quisesse me transformar em uma pessoa completamente diferente da que eu era há poucos dias atrás. Exigia que eu me tornasse outra pessoa o mais rápido possível.
O problema é que mesmo sabendo que eu devia mudar, eu não queria deixar de ser a Lizzie rica e mimada de antes. Não queria mudar de vida e deixar todo meu passado para trás.
Do contrário que eu imaginava, dormi a noite toda como uma pedra. Acordei no outro dia às duas da tarde. Mesmo já passada a hora de levantar, resolvi permanecer na cama. Não queria ter que encarar o rosto de Alice como se nada havia acontecido na noite passada. Levantei da cama e liguei o computador, desta vez queria entrar no MSN para falar com alguma de minhas amigas; estava carente e precisava que alguém levantasse minha moral.
Entrei como online pela primeira vez, olhei por toda a lista procurando alguém de interessante para conversar.
Der repente apareceu um convite pedindo para que eu aceitasse. Era um homem ou garoto chamado Julio Cesar. Aceitei apenas para ver quem era.
Julio Cesar diz:
- Oi J
Lizzie diz:
- Oi, quem é vc?
O homem demorou a responder, até que finalmente disse
Julio Cesar diz:
- Sou apenas um homem que te admira muito.
Será que esse homem era algum tipo de pedófilo com segundas intenções. Resolvi enfrentá-lo.
Lizzie diz:
- Da onde vc me conhece?
Julio Cesar diz:
- Sou seu tio.
Como assim meu tio. Meus pais nunca haviam comentado sobre ele... Ele não poderia ser meu tio, eu só tinha tias por parte de pai, e seus maridos não se chamavam Julio Cesar.
Julio Cesar diz:
-Sei que deve parecer estranho para você, sua mãe nunca comentou de mim?
Lizzie diz:
- Na verdade não... Ela é filha única.
Julio Cesar diz:
- Eu esperava que fosse assim...
Esse homem estava começando a me assustar; como ele pode chegar assim do nada e insinuar que minha mãe era uma mentirosa, e que é seu irmão!
Lizzie diz:
- Olha, acho que deve ter me confundido com outra pessoa moço...
Julio Cesar diz:
- Não Lizzie, não estou me confundindo. Sua mãe se chama Luna e seu pai Sandro. Eu fui visitar sua avó, minha mãe no asilo e ela não se lembrava de mim. Acho que a perda de memória dela deve ter piorado ainda mais.
Como ele poderia saber tanto assim de minha vida. Quem era esse homem na verdade ? Minha cabeça estava confusa e não sabia mais o que falar para aquele homem.
Lizzie diz:
- Eu não acredito em vc!
Julio Cesar diz:
- Sim, eu imaginava que não iria acreditar em mim, mas um dia vc ira entender... Tudo. Sua mãe nunca contou nada sobre mim, pois quando você nasceu eu pedi a ela que... não ficasse comentando muito sobre mim. Eu fui embora quando você nasceu.
Lizzie diz:
- Por que você foi embora... Por que não queria que eu te conhecesse.
Julio Cesar diz:
- Não queria ser muito próximo de você...
Lizzie diz:
- Mas por quê? – Minha mente estava confusa, sentia uma grande angustia em meu peito. Existiam tantas coisas em minha vida da qual eu não sabia... por quê só agora estou descobrindo coisas das quais antes nunca haviam feito falta alguma para mim!
Por que justo agora esse homem havia me procurado, por quê?
Lizzie diz:
- Por que vc quer se aproximar de mim agora?
Julio Cesar diz:
- Pois agora que seus pais morreram, essa é minha obrigação... Bem, sempre foi. Eu tenho obrigação de cuidar de vc!
Lizzie diz:
- Não quero me veja como uma obrigação, muito obrigada! Eu não preciso de sua ajuda!
Por que todos me viam como um estorvo? Uma obrigação? Eu não preciso que ninguém cuide de mim e nem se sintam obrigados a isso.
Novamente meu dia estava sendo uma merda! Desliguei o MSN e nem ao menos esperei a resposta daquele homem!
Sentei perto da porta que dava para a sacada do quarto. Fiquei pensando o que eu devia fazer... Qual era a coisa certa a se fazer. Será que eu tinha razão em minhas atitudes, será que eu deveria deixar a vida seguir em frente e esquecer-se de tudo que estava acontecendo? Eu não sabia mais de nada.
Peguei o livro que Luan me emprestou e continuei a lê-lo. Não sei dizer o por quê, mas aquele livro me dava uma sensação de conforto e segurança; eu sentia que eu lê-lo, tinha em minhas mãos um antídoto para tudo que me chateava. Meus problemas tão grandes só tornavam minúsculos. O espiritismo ao contrário de outras religiões que já havia visto me dava certa paz. Havia me identificado especialmente com ele. Minhas amigas falavam que essa era uma religião macabra, que nela a única coisa que se fazia era conversar com gente morta. Mas, pelo pouco que consegui conhecer, o espiritismo nada mais causava em mim, certa segurança sobre a vida e a morte. Deixava-me segura... Não sei por quê e nem se tudo que dizem é verdade, mas quando estava lendo, a dor da perda dos meus pais se transformavam em alívio, como se eles estivessem comigo ainda.
Enquanto lia e pensava, ouvi alguém batendo na porta.
- Liz, sou eu, Alice. Trouxe seu café da manhã. Você esta acordada? Posso entrar? – a voz dela era calma e meiga.
- Pode entrar. – Virei meu rosto em direção a porta e tentei fazer uma cara de indiferença, como se nada houvesse acontecido na noite passada.
- Oi, posso deixar a bandeja aqui em cima da cama? – Ela deu um meio sorriso para mim. – Olha Liz, me desculpe da briga de ontem... Eu fui dura ao falar tantas coisas a você. Apenas estava nervosa, você me deixou muito preocupada!
- Tudo bem tia, sabe, acho que você até tinha razão. É que não estou acostumada com esse tipo de criação, esse tipo de vida... – Tentei sorrir, mas acho que fiz uma careta.
- Eu entendo você foi criada desse modo, e com o tempo vai aprendendo... e mudando. Não te acho uma pessoa ruim Liz, só quero que seja uma pessoa cada vez melhor. E sei que você também quer isso, todos nós queremos ser melhores não acha? – Alice se aproximou de mim e segurou minha mão.
- Sim. Desculpe-me ter saído sem sua permissão, é que... Eu queria muito sair.
- Tudo bem. Mas da próxima vez espero que entenda meu lado. – ela beijou minha bochecha e soltou minha mão.
- Sim... Tia posso te perguntar uma coisa? - Não sabia se essa era a hora certa de tocar em um assunto familiar, mas eu realmente precisava tirar essa duvida que vagava em minha cabeça.
- Claro, o que foi. – Os olhos de Alice eram calmos e serenos.
- Você conhece algum Julio Cesar? – sentia que havia sido direta demais.
Os olhos de Alice se arregalaram sutilmente, e o nervosismo era vívido em seu rosto.
- Por que esta me fazendo essa pergunta? – Ela disse gaguejando.
Não queria ter que contar da conversa do MSN, mas minha curiosidade fazia com que eu colocasse todas as cartas na mesa, para desvendar essa questão de um vez!
- É que um homem chamado Julio Cesar me adicionou no MSN e veio me falando que era meu tio por parte de mãe.
-Sabe Liz... Eu não sei muito sobre a família de sua mãe, apenas sou prima de seu pai. – Ela desviou o olhar de mim e abaixou a cabeça.
Essa era uma coisa da qual eu não sabia e nem havia procurado saber. Alice era prima de meu pai! Como eu pude deixar de perguntar isso!
- Mas como eu irei saber se esse tal de Julio é algum parente meu?
- Não sei Lizzie, deixe esse assunto para lá. Se esse homem te procurar de novo me coloque para falar com ele ok? – O rosto de Alice era de frustração. – Vou descer querida, Pietro deve estar precisando de mim. – Ela se virou e saiu.
Não consegui acreditar no que Alice havia me dito, acho que ela sabe muito mais coisas do que afirma saber. Se não soubesse quem era Julio, por quê havia ficado tão nervosa ao me ouvir mencionar seu nome? Eu precisava saber o que estava acontecendo!
Tomei meu café da manhã, me vesti e desci. Já se passavam das três e meia da tarde e Alice e Pietro estavam almoçando.
- Então Rapunzel, resolveu descer um pouco de sua torre? – O rosto de Alice era de deboche, e novamente seu sorriso de aeromoça surgiu.
- Pois é... Acho que estou meio sem nada pra fazer ultimamente. – Também fiz um rosto de deboche.
- Nossa, que menina aventureira e inquieta. Não acha que já se divertiu demais ontem a noite? (risos).
Comecei a lembrar de todos os acontecimentos felizes e tristes de ontem, e minha preocupação começou a se formar. Luan devia estar pensando que sou uma louca dissimulada que fugia de casa e deixava-o sem nenhuma explicação. Acho melhor ligar para ele.
- Tia, já volto. Esqueci uma coisa lá em cima...
- Ok.
Sabia que ela não havia engolido o que eu havia dito, mas esperava que não fosse escutar minha conversa com ele, atrás da porta.
Peguei meu celular e vi que tinha uma ligação perdida. Era de Luan, minhas mãos começaram a soar.
Retornei sua ligação. O celular tocou umas cinco vezes e nada dele atendê-lo.
- Alô?- Diz Luan.
- Oi, sou eu... Lizzie.
- Ah sim, oi Lizzie... – seu tom de voz era mais animado.
- Desculpa pela noite de ontem.
- Você esta pedindo desculpas pelo beijo maravilhoso e o jantar encantador que tivemos?
A vergonha tomou conta de mim! Como ele poderia me fazer me sentir tão bem assim!
- Não estou falando disso... eu também gostei muito! Estou falando de quando a minha tia e o policial apareceram...
- Ah sim, fiquei um pouco assustado na hora... mas juro que achei muito sexy, nunca paquerei uma garota que no fim da noite fosse embora em uma viatura policial! Muito exótico! (risos)... Estou brincando Lizzie... fiquei preocupado com você, o que houve?
- (risos) Eu ainda não conhecia esse seu lado irônico. Bem... é que... – Não queria ter que contar a ele que fui ao jantar sem a permição de minha madrinha, não queria que ele tivesse uma impressão errada de mim! – Minha tia ficou preocupada comigo, achou que tivesse acontecido alguma coisa, pois demorei pra voltar... Ela é meio “superprotetora”.
- Nossa! (risos) Ainda bem que foi só isso, achei que tivesse acontecido alguma coisa grave!
- Não, não! Não se preocupe!
- Mas então... Mudando de assunto, você gostou de ontem? – a voz de Luan era meiga e muito sexy. Conseguia até imaginar seu rosto.
- Claro! – Só consegui dizer isso, estava com muita vergonha!
- Que bom então, eu pensei em você a noite toda...
Minhas bochechas rosaram! Ele realmente sabia como deixar uma garota louca!
- Ah, que bom (risos). Eu também – Menti um pouco.
- Então, eu estava vendo na internet, lançou um filme chamado Cisne Negro. Você não queria assistir comigo?
- Mas sobre o que fala o filme?
- Ele me fez lembrar muito de você. É sobre uma garota que dança balé e seu sonho é ser uma bailarina excelente. O filme também conta muito sobre a história da peça “Cisne negro”, que você deve conhecer, pois é bailarina.
- Que legal! Quero ir sim, mas quando? – Não sabia se era uma boa idéia sair com Luan de novo, principalmente depois de tudo que aconteceu na noite passada. Alice não ia me deixar ir e dessa vez me trancaria no quarto, trancando qualquer porta ou janela da qual eu possa escapar para vê-lo! Mas não estarei perdendo nada em me arriscar!
- Ah, pode ser sábado que vem? É que essa semana tenho que ajudar meu pai no restaurante...
- Claro, também não posso sair essa semana, tenho que ajudar Alice nos afazeres domésticos.
- Nossa garota prendada! (risos)
- (risos).
- Lizz, venha aqui, Adílio venho aqui te visitar! – Grita Alice lá de baixo.
- Luan, tenho que desligar. Minha tia esta me chamando!
- Ok. Beijos linda! Te adoro! Tchau.
- Também! Beijos, tchau!
- Já estou descendo! – Gritei para Alice.
Fiquei um tanto surpresa em saber que Adílio havia vindo até aqui para me ver. Ele realmente era um homem muito legal! Um verdadeiro amigo!
Desci as escadas e fui até a sala, lá estava Adílio sentado no sofá e do seu lado um garoto alto, com cabelos loiros e olhos azuis.
- Oi. – falei, dando um abraço em Adílio.
- Oi minha linda, lembra que eu comentei de meu filho Bernardo. Aqui esta ele! Comentei sobre você para ele, como era linda e encantadora, e ele quis te visitar. Acho que se apaixonou! (risos)
Fiquei vermelha.
- Para pai! – Bernardo disse virando os olhos e levantando para me cumprimentar. – Oi, tudo bem?
- Tudo sim e com você?
- Estou bem também – Disse Bernardo abrindo um grande sorriso no rosto.
- Então né Lizzie... Mal chegou e já esta fazendo tanto sucesso! – Disse Alice com uma voz irônica.
- (risos) Parem com isso gente, Bernardo vai ser apenas mais um amigo, como Adílio.
- Que pena, queria tanto ter você como nora (risos)! – Adílio ria e suas bochechas ficavam roxas. – Bom, eu não vim aqui apenas para visitar Lizzie e minha linda Alice – Adílio dizia o nome de Alice e seus olhos brilhavam.
Então quer dizer que ele gosta de Alice? Isso realmente era muito bacana! O pouco que sabia sobre Alice era que depois que seu marido faleceu, ela nunca mais se envolveu com mais nenhum homem.
- La vem você de novo com esse papo – Disse Alice revirando os olhos e sorrindo. – Não preste atenção nas coisas que Adílio diz Lizz, ele é muito brincalhão.
- Mas por quê? Seria muito bacana se vocês dois...
- Então, eu fiz café, vamos até a cozinha tomar um pouco? – Diz Alice me interrompendo.
Adílio apenas riu.
- Então, como eu estava dizendo, vim aqui para levar Lizzie para dar um passeio comigo e com Bernardo. Vamos até minha fazenda, quero mostrar a ela minhas plantações de uva, meus estoques de queijo e vinho...
- Não sei se é uma boa idéia – O rosto de Alice era desconfiado.
- Ah, por favor, Alicinha, a menina precisa sair um pouco; ou você quer deixá-la trancada aqui como uma prisioneira! – O rosto de Adílio era sério, como se essa fosse uma causa séria da qual ele tinha que lutar.
- Ah Adílio, trágico como sempre. Lizzie já saiu demais e também já me preocupou demais desde quando chegou! E Outra, ela esta de castigo. – Alice parecia falar sério.
- Como assim de castigo? Como você pode castigar uma menina que passou por tantas coisas nesses últimos dias? Você não acha que tudo que aconteceu já foi castigo demais para ela? – Adílio fez uma expressão séria para Alice.
- Ah, mas ela saiu ontem à noite escondida de mim, para se encontrar com um garoto. – Alice olhou para mim esperando uma afirmação. Fiquei quieta.
- Como assim? Ixe Bernardo! Acho que você rodou nessa! – Adílio cutucou Bernardo, que ficou com as bochechas vermelhas e virou os olhos.
- Eu já pedi desculpas Alice, é que eu não estava bem... e precisava sair! – Disse tentando convencer Alice a me deixar sair, queria realmente sair um pouco. Esquecer os problemas.
- Esta bem Lizzie! Mas se isso acontecer novamente, eu não serei mais flexivel! – Alice permaneceu com a expressão séria no rosto.
- Ixe Lizz, se eu fosse você não provocava a Alice não! Essa mulher é brava! – Adílio ria novamente.
Nunca havia conhecido esse lado de Alice e esperava nunca conhecer! O pouco que vi ela brava, foi quando brigou comigo na noite de sábado, mas mesmo assim, não considerava ela uma mulher brava! Apenas preocupada comigo.
- Bem, vamos tomar um café antes. Eu preparei agora pouco e esta quentinho! – Disse Alice sorrindo novamente.
- Tudo bem! – Adílio sorriu e revirou os olhos.
Após tomarmos o café, que estava delicioso!
Adílio tinha uma camionete branca, não muito nova, mas que era bonita. Foi com ela que fomos para a fazenda dele. Fui o caminho todo conversando com os dois e ouvindo musicas brasileiras sertanejas. Victor e Leo, Bruno e Marrone, Luan Santana. Por um tempo me senti no Brasil, e isso me fez muito bem desta vez.
- Chegamos! – Disse Adílio sorrindo.
Era uma fazenda simples, mas grande e muito bonita. Tinha várias plantações e arvores. A casa ficava ao centro. O portão de entrada era de madeira, bem grande. Da entrada até a porta tinham algumas arvores que fazia um caminho que dava até a casa.
Adílio estacionou a camionete e descemos. Fui recepcionada por um cachorro muito grande, era um pastor alemão muito bonito! Ele pulava e fazia festa para Bernardo.
- Nossa, ele sempre é assim com você? – perguntei para Bernardo.
- Sim (risos), ele é muito apegado comigo!
- Bernardo, mostre a fazenda para Lizzie, tenho que pegar umas encomendas de queijo. – Disse Adílio sorrindo para mim.
Bernardo era muito educado, mostrou toda a fazenda para mim, desde as plantações aos animais, que era bastante. Tinha galinha, ganso, pato, algumas vacas, porco, e dois cavalos lindos. Um era dele e outro de seu pai.
- Sabe andar a cavalo? – Bernardo disse sorrindo para mim.
- Ah, meus pais tinham uma fazenda, mas não tínhamos muito tempo para ir até lá. – Novamente fiquei um pouco triste em falar de meus pais, mas essa tristeza já não era tão grande como antes. O buraco em meu peito ainda doía, mas não a ponto de me fazer tremer. - Eu tinha um cavalo, mas acho que andei apenas umas três vezes com ele, acabei perdendo um pouco a prática.
- Hum, se você quiser, podemos dar uma volta, para você lembrar um pouco como é andar a cavalo.
- Tudo bem, só não rie de mim, pois sou muito desastrada (risos).
- Bem, é só você me garantir que não vai passar com o cavalo por cima das plantações de meu pai e nem vai tentar se matar! (risos) – Bernardo sorria lindamente e revirava os olhos.
- (risos) Tudo bem.
Fomos até o celeiro e Bernardo pediu para que eu escolhesse um dos dois cavalos. Um era preto e outro marrom, os dois eram tão lindos que tive que fazer carinho. O cavalo preto era muito doce e foi o que eu me identifiquei mais.
- Parece que ele gostou de você. – Disse Bernardo.
- Sim, eu também gostei muito dele! De quem ele é? Do Adílio?
- Não, meu. – Bernardo ria.
- Ah, desculpa, pode ficar com ele. – minhas bochechas rosaram novamente.
- Não, ele gostou de você e você gostou dele. Acho que já fui trocado de qualquer forma (risos).
- (risos) Tenho certeza que ele te ama.
- É eu sei. – Bernardo olhava para mim e sorria.
Ele me ajudou a montar no cavalo, o que foi uma tarefa mais facil pois já lembrava de quando andava a cavalo em minha fazenda. Andamos por toda a fazenda até que perdi o controle do cavalo e acabei ultrapassando os limites da fazenda.
- Bernardo, como eu paroooo! Ele não quer me obedecer! – estava começando a ficar com medo, o cavalo de Bernardo não parava e nem respondia aos meus comandos. Já estava bem longe da fazenda e ao longe não via nada, a não ser o horizonte e um rio bem distante.
O cavalo não diminui sua velocidade e meu coração acelerou. Bernardo apareceu ao meu lado e jogou uma corda que enroscou na cabeça do cavalo.
- BENJAMIM PARE. - ele gritou.
- Então é esse o nome dele! – Eu disse ofegante.
O cavalo parou perto do rio que havia visto ao horizonte.
- Você prometeu que não ia tentar se matar. – Bernardo ria ofegante.
- Acho que não cumpri minha promeça. (risos) Desculpe.
Bernardo olhou para trás.
- Acho que estamos bem longe da fazenda.
- Sim – respondi mordendo os lábios.
- Dane-se, olha que riu lindo que você encontrou. Parabéns! – Bernardo ria e batia palmas.
- (risos) Essa foi minha intenção o tempo todo.
- Ah sim, sua intenção foi quase se matar, pular a cerca da fazenda, vir até a um riu e me trazer junto?
- Eu não te trouxe junto, você que veio atrás de mim!(risos)
- Eu salvei sua vida! – Bernardo piscou para mim
- Ah sim, obrigada!(risos).
Descemos dos cavalos e sentamos perto ao rio.
- Iai que escola você vai estudar? – perguntou Bernardo jogando uma pedra que quicou na água.
- Ah, não sei ainda. Alice me disse que vai me matricular depois das férias de Julho.
- Então será breve. Já estávamos na metade de Julho.
- É, infelizmente. – Não consegui evitar demonstrar desapontamento com essa idéia.
- Por que, não esta animada? – Bernardo largou a pedra que segurava em sua mão e me encarou.
- Ah, não é que eu não goste de estudar. É que não estou preparada pra fazer novas amizades, conhecer novos professores, novas matérias. Queria saber como vou estudar sendo que nem sei falar francês.
- Bem, acho que a Alice vai te matricular em uma escola que tenha intercâmbio. Como a minha. Nessas escolas costumam ter professores que falam outras linguas.
- Bem que eu queria estudar na mesma escola que a sua. – Eu disse pegando uma pedra e fazendo-aela quicar na água.
- Aé? Por quê? – Os olhos de Bernardo eram curiosos.
- Ah, sei lá. Pelo menos eu iria conhecer alguém lá.
- Hum, eu também ia gostar muito de ter você como... Minha colega de classe. – Bernardo sorriu.
- É, mas eu não iria poder estudar na mesma classe que a sua, eu não sei falar francês.
- Mas idai, pelo menos na mesma escola! Eu iria poder te ensinar a falar francês. (risos).
- Mas o que eu ia te dar em troca?
- Como assim? – Bernardo arregalou os olhos claros.
- Ah, é que quando alguém faz algo por mim, eu costumo retribuir. – sorri.
- (risos) Ah, mas ai depois a gente resolve isso.
O silêncio tomou conta do ambiente por alguns segundos e ficamos observando a paisagem e sentindo o vento gostoso, mas não frio que batia em nossos rostos. O frio não era mais intenso e o sol aparecia tímido no céu.
- O seu pai gosta da Alice? – perguntei quebrando o silêncio.
- Sim, ele sempre gostou dela, mesmo antes da morte de seu marido. (risos)
- Nossa!(risos) Ela... Gosta dele?
- Não sei me diz você. Ela é sua madrinha. (risos) – Bernardo virou os olhos.
- Não sou tão próxima dela, antes de vim morar com ela não tinha muito contato.
- Ah, que pena. Mas, parece que ela gosta muito de você.
- Você acha?
- Sim, parece que você tem o dom de fazer com que as pessoas se encantem com você muito rápido (risos).
- (risos) Por que diz isso? – Olhei para ele curiosa.
- Ah sei lá, primeiro Alice, depois meu pai (risos).
- (risos).
- E aquele garoto de quem Alice estava falando? Você o conhece daqui? – Bernardo me encarava curioso procurando uma resposta.
- Mais ou menos, eu o conheci no avião vindo para Paris.
- Vocês são... Namorados? – Bernardo permanecia me encarando.
- Não, somos... Só amigos. – Olhei para Bernardo e sorri.
Não queria contar a ele que estava começando a gostar de Luan e que tínhamos nos beijado, ele poderia contar para Adílio, que contaria para Alice. Eu não queria provocar outra briga com Alice.
- Hum, sei. –Bernardo riu e revirou os olhos.
- (risos) Já que você tocou no assunto... E você, tem namorada? – Agora fui eu, quem encarou ele.
- Não – Ele disse sorrindo. – Mas pretendo ter em breve.
- Ulalá, então quer dizer que esta a procura de alguém? – Meu tom de voz era irônico.
- (risos) É... Mais ou menos. – Suas bochechas rosaram.
- Já sei o que te darei em troca das aulas de francês.
Bernardo me encarou e arregalou os olhos sutilmente.
- O quê? – falou.
- Vou te arranjar uma namorada. – Olhei para ele e pisquei.
- (risos) Você nem sabe que estilo de menina eu gosto.
- Podemos resolver isso agora mesmo, me fale que tipo de menina você gosta – Virei meu corpo em sua direção, fiquei sorrindo e esperando uma resposta.
- Ah, não sei como falar.
- Deixe eu te ajudar, loira, morena, gorda, magra, branca, preta, patricinha, engraçada, maloqueira...
- (risos) Morena, branca, engraçada.
- Hum, mais velha, mais nova ou da mesma idade?
- Ah, isso eu acho que depende, se eu gostar dela, não importa a idade.
- Hum (risos) Prometo que vou te ajudar algum dia. – Me virei novamente em direção ao rio e fiquei encarando o horizonte. Aquele havia sido um dia muito bacana. Estava feliz em conhecer Bernardo e a fazenda de Adílio; a dor em meu peito já não era tão grande e minha tristeza também.
- Quem sabe você não seja meu tipo... (risos) – Bernardo virou para mim.
Olhei para ele e arregalei os olhos. Ele sorriu e mostrou a língua.
- Melhor voltarmos para a fazenda, antes que meu pai pense que te sequestrei. (risos)
- Ok.
Levantamos e montamos novamente em nossos cavalos. Fiquei pensando no que Bernardo havia me dito e por um momento fiquei assustada na possibilidade de ser verdade; ele não podia estar gostando de mim, eu não gostava dele como algo mais...
No caminho para a fazenda, fomos conversando.
- Que religião você é? – Perguntei a Bernardo.
- Sou católico e você?
- Sou espírita. – Eu sabia que não era certo falar que sou uma religião da qual mal conhecia, mas era melhor do que dizer que não tinha nenhuma religião.
- Que legal, já ouvi falar sobre essa religião, meus tios que moram no Brasil são espíritas.
- Legal. Você é por opção própria ou seus pais já eram espíritas?
- Sou por opção própria, achei essa religião muito bonita! Apeguei-me a ela principalmente depois da morte de meus pais. – Meu rosto saiu de alegre, para triste.
Bernardo virou para mim.
- Eu sei, deve ser muito duro passar por tudo isso! Você é uma garota muito forte!
- Obrigada! – Tentei mudar minha expressão para feliz.
Ao chegarmos a fazenda, colocamos os cavalos no celeiro e fomos até a casa de Bernardo.
Era uma casa de madeira, mas muito bem arrumada. Rústica e muito bonita.
- Quer conhecer meu quarto? – disse Bernardo.
- Ta. – sorri para ele.
O quarto de Bernardo era simples; tinha uma cama de solteiro, um guarda roupa encostado-se a uma parede ao lado da porta, uma janela que ficava na cabeceira da cama e uma mesa com um computador. Do lado dessa mesa, encostado na parede, tinha um violão preto, lindo!
- Você sabe tocar? – perguntei.
- Tocar? Ah, sim, o violão. Sei, um pouco.
- Toca um pouco pra eu ver? – sorri.
- Ah, eu não toco muito bem... – Bernardo ficou vermelho.
- Por favor, se você tocar pra mim, eu danço um pouco.
- Você dança o quê?
- Balé. Seu pai não comentou com você?
- Isso não.
Bernardo pegou o violão e tocou uma musica em Francês que eu não conhecia, mas que era linda. Fiquei encantada com sua voz e com o seu talento.
- Você disse que não sabia tocar muito bem.
Bernardo apenas sorriu.
- Iai? – Bernardo colocou o violão na cama e cruzou os braços.
- O que?
- Você ia dançar para mim lembra? – Bernardo me encarou e sorriu.
- Mas, sem musica? – Também o encarei.
Ele ergueu uma sobrancelha, levantou e foi em direção ao computador.
Começou a tocar uma musica da Sara Bareilles chamada Uncharted.
- Mas, essa musica não é de balé. – eu disse tentando me livrar daquele constrangimento.
- Uai, que tipo de dançarina é você. Sinta a musica.
Percebi que não havia outra escolha, deixei minha vergonha para o lado e comecei a dançar. Nunca havia dançado para ninguém sozinha, em minhas apresentações sempre dancei em grupos e sempre para uma platéia grande. Esse tipo de show particular apenas fazia para meus pais e Rose. Voltar a dançar me fez muito bem. Deu-me uma sensação de paz da qual eu não tinha a muito tempo.
Essa sensação me fazia sorrir, me fazia querer dançar para sempre, me fazia acreditar que não havia nada nesse mundo que pudesse me derrubar, que eu era indestrutível e que a única coisa que precisava fazer era dançar, dançar, dançar...
A musica terminou e eu abri meus olhos. Bernardo estava com os olhos fixos em mim. Olhei para ele e sorri, ele retribuiu o sorriso e levantou da cadeira.
- Você dança muito bem. Por que não participa de algum campeonato, concurso, sei lá?
- Depois da morte de meus pais não tive mais ânimo para continuar a dançar. Não tive nada que me motivasse a continuar.
- O fato de você estar viva já não é uma grande motivação? O fato de você não ter que ir morar em um orfanato e de ter pessoas que se preocupam com você não é um grande motivo de você querer continuar? – Bernardo dizia isso com os olhos fixos aos meus.
Ele tinha toda razão. A morte de meus pais poderia ter causado um impacto muito maior em minha vida. Eu tinha que parar de reclamar tanto e agradecer por todas as oportunidades que foram abertas a mim, mesmo depois de tudo que passei eu tinha muita sorte mesmo.
- Você tem razão, mas na prática isso é mais difícil que na teoria.
- É eu sei – Ele disse e se aproximou de mim.
- Eu sei que nos conhecemos a pouco tempo, mas... Você pode contar comigo para tudo que precisar! – Bernardo segurou a minha mão.
Começaram a bater na porta do quarto e rapidamente soltei minha mão da dele.
- Pode entrar – disse Bernardo.
- Oi, voltei – disse Adílio sorrindo para mim. – Iai, o que achou da fazenda?
- Muito linda! Obrigada por me trazer, estou me sentindo muito melhor! – sorri.
- De nada minha linda! Iai, você gostou da companhia de Bernardo? – Adílio sorriu e piscou para mim.
Minhas bochechas rosaram e eu tentei disfarçar.
- Sim, gostei, ele é bem legal!
- Que bom então! Desculpa não ter te mostrado a fazenda Lizz, é que eu recebi uma encomenda de ultima hora de queijos e vinhos e não poderia recusar.
- Claro! Fique tranquilo. – sorri.
- Pai, ainda falta eu mostrar a ela nossa Adega de vinhos. – Bernardo olhou para mim e sorriu.
- Ah, então vamos lá! – Adílio me puxou pela mão. – Você vai gostar muito, é lindo. Também vou te mostrar a plantação de uvas das quais fazemos o vinho.
A Adega era muito rústica e bonita, eu acho lindo esse tipo de coisa! Adílio me contou que essa paixão por vinhos vinha de pai para filho e que quando ele morresse esperava que Bernardo seguisse essa tradição de família.
Bernardo também era encantado por vinhos e prometia que nunca iria quebrar esse laço familiar.
Visitamos a plantação de uva, que era muito linda! Algumas madeiras faziam uma estrutura em cima de nossa cabeça e a uva preenchia toda essa estrutura como um grande teto de folhas e uvas.
Pegamos algumas uvas e comemos, eram todas doces e deliciosas!
Passei a tarde toda na fazenda, comemos queijo, bolo... Experimentei um gole do vinho que era delicioso! De tardezinha, lá pelas cinco horas da tarde Adílio me levou para casa. Eu e Bernardo trocamos msn para manter contato e já combinei de vizitá-los mais vezes.
Esse passeio foi muito bom para mim!
6. A dor se transforma em lembranças:
A semana passou bem rápida e logo já era sábado, durante toda a semana conversei com Bernardo pelo MSN e aproveitamos para conhecer melhor um ao outro. Luan me ligava quase todos os dias e conversávamos sobre nossos sentimentos e também sobre espiritismo.
Durante a semana aproveitei para ler o livro que havia ganhado, já estava na metade dele. Quanto mais lia, mais aliviada e conformada ficava com a morte de meus pais.
Conversei com Alice na sexta feira e depois de muito pedir, ela aceitou que eu fosse ao cinema com Luan; acho que ficou com medo de que tentasse fugir novamente.
- Estou passando daí pra te pegar!
- Ok, estou te esperando.
Desci as escadas rapidamente.
- Nossa quanta pressa mocinha! – diz Alice sorrindo.
- É que o Luan já esta chegando, não quero chegar atrasada para o filme!
- Hum, sei (risos)!
Depois de alguns minutos a campainha tocou. Abri a porta correndo.
- Tchau tia, volto daqui umas 4 horas.
Ainda não havia conhecido o shopping de París. Era lindo, com lojas de marcas famosas espalhadas por corredores movimentados com pessoas bem vestidas. Senti-me encantada, aquele ambiente era o tipo em que eu gostava de freqüentar. O ambiente em que estava acostumada a estar. Senti-me como quando morava no Brasil, como quando podia comprar tudo que quisesse sem pensar no custo ou nos gastos.
É claro que os shoppings que freqüentava não eram nada comparados com o daqui, não que não fossem grandes e bonitos; mas o de París era diferente, possuía marcas e lojas das quais nunca havia conhecido alem de ser frequentadas por pessoas de todo o mundo. Muitas bonitas e bem vestidas...
Depois de andarmos por grande parte do shopping, resolvemos parar para comer. O andar dos fest foods era imenso! Tinha restaurantes dos quais eu nem conhecia, com comidas das quais eu nunca havia comido antes. Eu sempre fui de comer de tudo; sempre experimentei pratos diferentes, mas não estava acostumada com tantas variações como aqui em París.
A parte negativa disso tudo era que eu não podia comprar quase nada do que tinha a oferecer no shopping, e isso de certa forma me constrangia.
- O que você acha de comermos comida chinesa? - Luan perguntou para mim.
Eu não sabia se o dinheiro que havia trazido seria suficiente para pagar o cinema e a comida chinesa.
- Ah, não sei... – Não queria ter que admitir que não tinha dinheiro para comer esse tipo de comida. Isso me deixaria muito constrangida!
- Por que não? Você não gosta de comida chinesa?
- Sim...
- Então sem desculpas! –Ele puxou minha mão e entramos no restaurante.
Sentei um pouco envergonhada, ainda pensando em como iria pagar pela comida. Momentos como esse que me faziam sentir raiva da morte de meus pais, sentir revolta deles terem me deixado em uma vida da qual eu nunca me adaptaria! Momentos como esse que me fazia sentir vontade de ficar trancada dentro de meu quarto sem olhar para a cara de mais ninguém!
- Moço, por favor – Chamou Luan, acenando com a mão.
O garçom que estava acostumado em atender estrangeiros brasileiros, disse em português com sotaque francês:
- Olá, o que desejam?
Luan fez o seu pedido e eu fiquei olhando o cardápio, procurando por algo com um preço mais em conta. Estava tudo escrito em francês, mas dava para entender por causa das fotos dos pratos em baixo de cada enunciado, e o preço que era em dólares e euro.
- Lizz, você já comeu comida chinesa alguma vez? – Perguntou Luan.
Ele e o garçom ficaram me encarando esperando uma resposta.
- Ah, sim! (Mas na época eu podia pagar – pensei comigo mesma).
- Você se importaria se eu escolhesse seu prato? – Luan estava tentando ser cavalheiro.
O garçom fez uma cara de aprovação com o pedido de Luan.
- Sim, me importo! – Essas palavras escaparam de minha boca, no desespero de que o prato fosse muito caro e eu não pudesse pagar por ele.
Luan me olhou com espanto, pois nunca me vira ser tão grossa com ele. O garçom também me olhou espantado. Ambos ficaram me encarando com espanto, até que resolvi explicar o motivo de minha grosseria.
- Bem... É que... Eu gosto de rolinho primavera! – Olhei rapidamente para o cardápio e percebi que esse seria o único prato do qual eu poderia pagar, e ainda sobraria dinheiro para o cinema, a pipoca, o refrigerante e quem sabe um sorvetinho.
A comida chinesa não era tão cara! Pessoas de classe média podem pagar por ela. Mas, Alice não havia me dado muito dinheiro para ir ao shopping. Ela ainda tinha que ir ao banco para receber e como havia pedido licença de seu emprego de balconista, para poder dar atenção para mim, receberia um pouco menos do que o normal.
O rosto de Luan e do garçom ainda era de surpresa e desconfiança, mas mesmo assim resolveram esquecer o ocorrido.
- Enton, para a senhora é três rolinhos primavera especiais da casa e para o senhor uma porção de yakisoba? O que vão querer para beber?
- Eu quero um suco de laranja.
- Um suco de laranja e uma coca-cola, por favor! – Completou Luan para o garçom.
Depois que ele retirou da mesa, Luan ficou me encarando como se não houvesse engolido minha desculpa esfarrapada.
- Então, você não irá ficar com fome... É muito pouco o que você pediu. – Seu olhar era de desconfiança.
- Não, são rolinhos especiais da casa! Devem ser bem gostosos... E devem sustentar bastante! –Tentei contornar a situação.
- Hum... – Luan me encarou mais uma vez tentando retirar de meu olhar alguma resposta, mas resolveu mudar de assunto. – O que fez no final de semana passado?
-Visitei a fazenda de um amigo.
- Nossa, achei que ainda não tivesse amigos em París.
- (risos) Por que pensou isso?
- Não sei você chegou há pouco tempo e... Nem conhecia a cidade direito.
- Ah, eu fui ao mercado com minha tia e fiz amizade.
- E... Essa “amizade” é uma garota? – Luan parecia um pouco enciumado.
- Não, é um senhor chamado Adílio.
- Oh sim! – Ele sorriu com o canto dos lábios.
- Mas também fiz amizade com um garoto, o filho dele. –Tentei provocar ciúmes para ver qual seria sua reação.
Luan me olhou fixamente e ergueu uma de suas sobrancelhas.
O garçom chegou com nossos pratos e bebidas; então, cortamos um pouco o assunto e começamos a comer.
Depois de alguns minutos Luan quebrou o silêncio
– Um garoto? – Seu rosto era de desagrado.
- Sim, se chama Bernardo.
- E... Você fez o que na fazenda a tarde toda?
- Ah, Bernardo me mostrou a fazenda.
- Legal! – Luan revirou os olhos.
- Por que revirou os olhos? – Perguntei tentando retirar dele, mas alguma prova de que estava com ciúmes de mim.
- Nada, é que você não deve confiar em garotos que mal conhece...
- Mas, eu confiei em você... Não? – Ergui uma de minhas sobrancelhas.
Luan ficou desconcertado com a resposta.
- Mas, você não sabe se pode confiar em mim.
-É... Realmente, eu não sei!(risos).
- Você acha esse tal de Bernardo bonito? – Luan me encarou.
- Ah, ele não é feio!- Revirei meus olhos.
- Hum. Mas você o acha melhor do que eu?
- Conheço ele a pouco tempo...
- Você também me conhece há pouco tempo. – ele disse me interrompendo.
- Mas o conheço a menos tempo que te conheço.
- Me conte como ele é. – Luan ergueu uma de suas sobrancelhas e colocou suas mãos em baixo do queixo.
- (risos). Por que está tão interessado nele? – O encarei fixamente.
- Não estou. Só quero ter certeza de que você não me trocará por ele.
- Eu não posso trocar algo que não é meu.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que... Você não pertence a mim... Nós nos conhecemos há apenas duas semanas.
- Você tem razão. – Luan retirou as mãos de baixo do queixo, encostou suas costas na cadeira e cruzou os braços. –É que às vezes sinto que nos conhecemos a um tempão.
- Eu também sinto isso. Deve ser porque nos gostamos bastante.
O silêncio tomou conta do ambiente por alguns segundos.
- Ele se parece comigo? – Insistiu Luan.
- Um pouco. Ele é bem gentil comigo, como você é. Mas ele é mais despojado, mais desavergonhado.
- Como assim? - Os olhos dele eram confusos.
- Ah, ele não tem medo de nada, fala as coisas na cara. Você é mais educado, reservado.
- Hum, você gosta do estilo dele?
- Isso esta parecendo um interrogatório. – Falei, lembrando ele do dia em que nos conhecemos.
- (risos) Acho que sou muito curioso. – Ele revirou os olhos.
- Eu gosto disso. Também sou assim.
- É deu pra perceber um pouco. (risos)
Olhei para ele com cara de espanto e ri.
- Acho melhor irmos, já esta quase na hora do filme. – Disse Luan chamando o garçom e pedindo a conta.
O garçom colocou em cima da mesa uma carteira preta com o valor total da conta. Luan abriu sua carteira e retirou o dinheiro.
- Espere ai, me deixe ver quanto ficou o meu. – eu disse meio desconsertada com a situação.
- (risos) Por quê? – perguntou Luan sorrindo.
- Pra eu pagar, oras. – Revirei os olhos.
- (risos). Luan ignorou o que eu disse e colocou o dinheiro junto com a conta – Vamos? – Perguntou sorrindo para mim.
Fiquei o encarando. – Por que não me deixou pagar minha parte?
- Pois não é isso que se faz um cavalheiro. – ele me encarou e piscou.
Revirei os olhos.
Chegamos ao cinema e compramos uma pipoca grande para comermos juntos, Luan me deixou pagar a pipoca depois de muito insistir.
Comprei uma coca cola e Luan também é claro. Entramos na sala de cinema e o filme começou.
O filme era lindo, a garota que atuava como papel principal dançava maravilhosamente bem, me fazendo querer voltar a dançar; querer voltar a sentir a emoção e felicidade da qual senti no quarto de Bernardo, enquanto dançava.
A dança era tudo na vida dela, e também era tudo na minha. Mesmo o filme passando um lado negativo de sua vida, onde a garota enlouqueceu pela dança, apenas para ser a melhor no que fazia, para conseguir chegar à perfeição. Mesmo o filme nos impressionando com tanta dor e loucura, não me deu medo e nem repulsa, me fez lembrar apenas de mim.
Lembrar a época em que fazia aulas de dança, a época em que não aceitava que ninguém fosse melhor do que eu!
Não quero acabar esquecendo como é bom sentir essa emoção. Não quero acabar me arrependendo de ter desistido da única coisa em que me dava prazer. Da única coisa em que me fazia sentir viva e feliz. Depois da perda de meus pais, não queria perder a única coisa da qual ainda me restava.
Enquanto viajava em meus pensamentos, senti meu celular vibrar. Não queria ter que atender justo agora, mas pensei que talvez fosse Alice.
Peguei o celular de meu bolso e Luan olhou para mim e para o celular. Olhei o número e vi que era Bernardo. Meio desconcertada desliguei-o como se nada houvesse acontecido.
“- Era Alice?” – Perguntou baixinho Luan.
“-Não.” – disse gaguejando. – “Não sei de quem era o número”.
“-Hum...” – Luan olhou para mim, sorriu e beijou minha mão. Tentei sorrir de volta normalmente.
Após o termino do filme resolvemos dar uma volta para conhecer mais o shopping, que era muito grande! Passamos por várias vitrines de lojas de marcas famosas e fiquei hipnotizada com seus lançamentos de roupas, sapatos, jóias... Aquele era o mundo que eu pertencera, o mundo que eu amava pertencer; mas que agora eram apenas sonhos e deslumbres. Isso me deixava magoada, não estava acostumada a esse tipo de vida e restrições... Isso me cortava o coração! Poderia parecer egoísmo o meu, pois existem tantas pessoas no mundo que vive com bem menos do que eu! Mas minha criação me tornou assim, não conseguia me imaginar vivendo de uma forma da qual fugia de toda minha rotina, meus quereres.
Enquanto andávamos, observei cada detalhe, cada pessoa que passava ao meu lado... As coisas eram mais diferentes aqui... Mesmo que fossem pessoas quaisquer, pessoas como as do Brasil, existiam algumas diferenças, diferenças nas roupas, etnias,... Isso me deixava encantada.
“- Lizz...” – Ouvi gritarem de longe.
Olhei para onde vinha o som e olhei para Luan para ver se ele tinha notado que haviam me chamado.
“-Lizzie!” – Ouvi novamente.
Olhei ao longe e vi que era Bernardo, acenando com a mão e sorrindo. Olhei novamente para Luan que nem havia notado nada.
“- Vamos, acho que vi uma coisa virando aqui”. – Puxei seu braço correndo e virei no primeiro corredor que vi.
“-O que foi Lizzie... Parece que viu um fantasma...” – Respondeu Luan sorrindo.
“-Ah, eu vi sim...”
“- O que disse?” – Retrucou Luan.
“-Nada, eu vi uma loja de...” – Olhei ao meu redor e percebi que atrás de nós havia uma loja de langerri. “– Isso... Uma loja de Langerries... é disso que estou precisando” – Soltei sem pestanejar.
Fiquei meio constrangida em não ter pensado em nada mais inteligente no momento.
“- Você quer comprar... sutiãs agora?” – Luan disse assustado.
Fiquei vermelha.
“- Ah... Não são para mim... São para Alice!” – Eu realmente não sabia que desculpas dar.
“- Não acha melhor vocês virem outra hora?”
“-Claro!... Que cabeça a minha... comprar sutiãs sem ela? Como eu irei saber seu numero não é mesmo?!...”
Luan meio assustado apenas ria. Ri também com ele.
Continuamos a andar e ver vitrines, Luan me prometeu que em uma próxima vez comprava para mim alguma lembrancinha. Eu, é claro disse que não precisava...
“- O que você acha de tomarmos um sorvete?” – Luan olhou para mim com cara de esfomeado e começou a rir.
Ri junto com ele.
“- Tudo bem esfomeado!...”
“- Lizzie, você olha para mim e finge não conhecer?”
Virei assustada e dei de cara com Bernardo, que sorria com os braços cruzados.
Nem esperando que eu respondesse me deu um abraço apertado me erguendo levemente do chão. Eu assustada fingi que nada acontecia e apenas sorri em retribuição.
“-Oi...”- Disse a ele meio sem reação, e virei em direção ao Luan para ver sua expressão, que por sinal não era a das melhores. “– Luan... Esse aqui é Bernardo, meu amigo”.
“- Prazer.” – Disse Luan estendendo a mão para cumprimentá-lo.
Bernardo apenas respondeu com um oi e me abraçou.
“- O que está fazendo aqui no shopping?” – Perguntei a ele, soltando seu braço em torno de mim.
“- Oras... O mesmo que vocês!” – Respondeu Bernardo sorrindo. “- Ainda bem que te encontrei aqui, quero te apresentar alguns amigos meus, que estudam na mesma escola que a nossa!”.
Luan se sentindo meio desolado continuou quieto. Resolvi integrá-lo na conversa.
“- Ah, o que você acha Luan?” – Sorri para ele e segurei sua mão.
“- Ah... Se você quiser por mim tudo bem!”.
“Obaaa! Então vamos galerinha!”- Disse Bernardo sorrindo e se colocando no meio de nós dois, retirando a mão de Luan da minha.
Chegamos novamente na praça de alimentação e Bernardo acenou para um grupo de amigos que estavam pertos ao Mc Donald’s.
A menina respondeu e veio saltitante em nossa direção.
“- Bêr, você sai daqui de perto de nós e desaparece sem nem avisar! Cabeção!” – A menina deu um tapa de leve em sua cabeça.
Seus cabelos eram ruivos, era cheia de sardas e estava com uma blusa rosa toda florida um short jeans com rendas nas bordas e uma melissa lilás.
Ela era realmente linda! Me senti até um pouco constrangida perto dela.
“- Isa, Lizzie, Lizzie, Isa”. – Disse Bernardo nos apresentando.
“- Ah, então é você a famosa Lizzie que o Bernardo vive falando?” – Ela respondeu rindo. “-E quem é esse lindão ai do seu lado?”. – Isabela olhou para Luan de cima em baixo e foi cumprimentá-lo.
Senti uma pontada de ciúmes, mas procurei permanecer neutra.
“-Vamos gente, quero apresentá-los para o resto da turma.” – Isabela puxou meu braço e o braço de Luan e nos levou em direção ao restante da turma. “- Esses são, Guilherme, Pablo, Victor e Nayra”.
Todos me cumprimentaram e cumprimentaram Luan.
Resolvemos sentar junto a eles e por incrível que pareça me senti muito a vontade. Conversamos sobre tudo e conheci um pouco de cada um.
Isabela era cantora, se apresentava em barzinhos da região, morava no Brasil e veio para Paris morar por alguns anos com sua avó e estudar canto.
Guilherme tinha os cabelos escuros e cacheados, havia nascido em Paris, aprendeu a falar português com seus amigos estrangeiros que estudavam em sua escola. Seu sotaque era meio embaraçoso ainda.
Pablo era mulato e carioca. Havia vindo para París para morar com seus avós, depois da morte de seus pais. A história dele era bem parecida com a minha, a diferença é que ele tinha certa aproximação com seus avós, que sempre o visitava no Brasil.
Victor era loiro, havia nascido em Santa Catarina e vindo morar aqui em Paris com seus pais depois de uma oferta de emprego que seu pai recebeu em uma empresa de calçados.
Nayra era tinha o cabelo escuro mais com mechas loiras, havia nascido em São Paulo e vindo para París com seus pais; sua mãe era doente e buscava tratamento aqui em Paris.
Era todos humildes, nenhum deles era rico ou metido. Isso me deixou bem contente e me fez me sentir um pouco aliviada e até esquecer por algum tempo da faze que estava passando.
“- Iai Lizzie, você e o Luan são namorados?” – Perguntou Isabela, que por sinal não era nada discreta ou vergonhosa.
Não sabia o que responde, apenas olhei para Luan envergonhada.
“-Por enquanto não.” – Respondeu Luan e sorriu.
“-Ah, estão enrolados... Hum!” – Isabela sorriu e piscou para mim, Nayra cutucou-a e fez cara feia.
“- Bernardo ficou calado depois desse assunto que Isabela havia puxado.”
Depois de muita conversa perdi a noção de hora, senti meu celular vibrar novamente em meu bolso e vi que era Alice. Atendi rapidamente.
“- Alô... Alice.”
“-Lizzie, já são onze horas, que horas você irá voltar para casa?”.
“- Vou pedir para o Luan ligar para nos buscarmos.”
“-Esta bem então...”
“- Beijos, tchau”.
“-Era Alice? Ela quer que você vá embora não é?”.
“- Sim...”- olhei para ele e fiz biquinho.
“- Melhor irmos então, antes que ela nunca mais deixe você sair comigo!” – Luan fez uma cara de horror para mim.
Eu apenas ri.
“- Pessoal, temos que ir... Já esta meio tarde e sou novata aqui em Paris, minha madrinha me esgana se eu não chegar em casa logo!” – Fiz uma cara sarcástica.
“– AAH, não podem esperar mais um pouco?” – Bernardo disse pegando em minha mão.
“- Nem da Bêr... Tenho que ir mesmo! A gente se fala outra hora... combinamos de sair novamente. Gostei de vocês!” – Sorri para todos e dei um beijo de tchau em cada um.
“- Também gostamos muito de vocês dois...” – Respondeu Isabela encarando Luan.
Não gostava da forma que ela olhava para ele, era meio que como se ela quisesse algo mais com ele!
Nos despedimos e fomos em direção a saída do shopping. Chegando lá na frente Luan segurou minha mão e ficou me encarando.
“- O que foi? Fico constrangida quando me olha assim...”
Enquanto falava, ele colocou sua mão levemente em minha cintura e depois com mais força me puxou para bem perto dele.
“- Não gostei da forma que aquele tal de Bernardo te olha...” – disse em meu ouvido.
“- Eu também não gostei da forma que a Isabela te olhava...” – retruquei sem pestanejar.
“- Me parece então que estamos quites essa noite...” – Luan me encarou fixamente.
“- Não... Não estamos”. – Retruquei o encarando.
“- Por que não?” – Luan me encarava com um olhar curioso. Parece que ele queria enxergar algo que eu escondia.
“- Porque todas as vezes que me beijou, foi por iniciativa sua... Quero mudar um pouco isso!” – Encarei seus grandes e lindos olhos, me aproximei mais ainda e o beijei.
Ao contrário de mim Luan não se assustou e nem pareceu dar uma recuada. Era como se ele esperasse por aquilo, como se esperasse pelo momento em que eu tomaria iniciativa, que eu não me assustaria e me entregasse aquele momento da mesma forma que ele se entregava.
Suas mãos em minha cintura se apertavam com mais força até que de repente ele me empurrou levemente.
“- O que houve?” – Perguntei perplexa.
Estava curtindo tanto aquele momento que fiquei um pouco triste dele ter me afastado.
“- Melhor pararmos por aqui antes que eu queira algo mais... Não estou acostumava com essa Lizzie”. – Luan olhou para mim e sorriu.
Fiquei meio constrangida com esse “Algo mais” que ele havia dito. Não queria que ele pensasse que eu fosse alguma garota oferecida.
“- Desculpa...” – disse sem graça.
“- Não.” – Luan retrucou.
“- Por que não?” – Perguntei intrigada.
“- Não posso te perdoar de um erro que eu gostei de cometer. Não posso te perdoar de uma coisa que eu teria feito!”
A vergonha tomou conta novamente de mim, apenas sorri e olhei para o horizonte, a procura de algo que nos fizesse mudar de assunto.
Isso nem foi preciso, Luan pegou seu celular e ligou para seu motorista, pedindo que nos buscasse logo.
“- Ele já esta chegando...” – Luan disse desligando o celular.
Apenas concordei com a cabeça.
Ficamos um tempo em silêncio até que ele puxou assunto.
“- Então aqueles serão seus novos amigos de colégio?”
“- Sim. Ainda bem!” – Respondi virando em sua direção.
“- Por que ainda bem?” – Luan olhou para mim.
“- Eles são legais... pelo menos não terei dificuldade em me enturmar.”
“- Desde quando você tem dificuldade em se enturmar?”- Luan disse com uma cara de sarcasmo.
“- Ah... é meio difícil fazer amizades em um lugar aonde você nem conhece a língua”.
“- Mas para você isso não parece problema... Você fez amizade comigo e com Bernardo rapidamente... Já tem mais amigos que muitos que moram aqui a um bom tempo”. – Luan riu.
“- Ah, fiz amizade com vocês por conhecidencia... Você, eu conheci dentro do avião vindo para cá. O Bernardo conheci pela Alice, que era amiga de seu pai”.
“- Hum...”.
Começamos rir, até que ouvimos um barulho de buzina. Era o motorista de Bernardo que nos chamava e acenava para que entrássemos.
O caminho para minha casa não foi muito longo, ficamos observando as paisagens das ruas de Paris e conversando sobre o que havíamos achado do filme. Falei para Luan que meu sonho seria continuar a fazer balé e ele me disse que tinha uma academia para a qual a ex mulher de seu pai dava aulas, uma academia de balé. Se eu quisesse ele conversava com ela e perguntava se ainda tinha vagas abertas.
Isso me deixou muito contente, mas também com um pouco de medo. Estava acostumada a ter aulas há muitos anos, já era uma veterana na academia que estudava e seria um pouco difícil a me acostumar com outro tipo de tratamento em uma nova academia.
“- Quanto custa à mensalidade dessa academia?” – Perguntei com um pouco de medo. Não sabia se conseguiria pagar por elas.
“- Não sei... é uma academia bem consagrada aqui em Paris. Ela forma grandes bailarinas”.
Por ser uma academia consagrada, com certeza o custo seria bem alto. Me senti um pouco desanimada, tinha quase certeza de que dependendo do custo, não poderia seguir esse sonho.
“- Irei ver o preço e tudo certinho, depois te falo”.
Concordei com a cabeça. O carro parou e o motorista de Luan desceu para abrir a porta para mim.
Estava bem frio, bati na porta toda encolhida, e virei para trás acenando a Luan.
“- Entre menina que está frio ai fora”. – Disse Alice abrindo a porta.
Dentro de casa estava bem quentinho, tirei minha blusa e pendurei no cabide perto a porta.
“- Iai, como foi o passeio?” – Alice andava atrás de mim curiosa.
“- Foi legal... Encontrei o Bernardo lá!”.
“- Aé? Iai?...”
“- Como assim iai?” – Encarei Alice.
“- Ele parece gostar de você...”
Alice não entendia realmente nada sobre o amor. Se eu estava no shopping acompanhada com o Luan, como iria dar bola para qualquer outro garoto que me encontrasse lá dentro?
Não que eu quisesse, pois para mim o Luan já era suficiente para mim.
“- Alice...”
“- Não estou dizendo que é para você ter alguma coisa com ele Lizzie... só estou dizendo que ele é um bom garoto e me parece gostar de você.” – Alice dizia isso enquanto preparava um chá para nós duas.
“- Mas o Luan também é um bom garoto...” – respondi automaticamente.
Alice parou um pouco de fazer o que estava fazendo e me encarou.
“- Você gosta dele Lizz?”.
Demorei um pouco para responder pensando em uma boa resposta.
“- Nós somos apenas amigos...”
“- Hum”. – Alice parou de me encarar e voltou a preparar o chá. “- Sabe o que eu acho Lizz..”
“- O que?” – perguntei.
“- Acho que o Luan só te faz lembrar de seu passado, das coisas das quais você tinha, das companhias da qual estava acostumada. Para você pode parecer que gosta dele, mas acho que no fundo apenas está encontrando nele um refúgio, uma lembrança de como era as coisas para você”.
O que Alice havia dito me fez refletir. Talvez ela tivesse razão. O Luan me fazia me sentir um pouco em casa, me fazia sentir como se nada houvesse mudado em minha vida.
O chá estava pronto. Tomamos enquanto contava para ela sobre o filme. Ela ficou um pouco chocada com algumas das cenas que citei, mas achou o filme bem interessante.
Resolvi não contar para ela sobre as aulas de balé que Luan havia comentado, pelo menos por enquanto. Subi para meu quarto e fui dormir.
7. Sentimentos divididos:
Dormi como uma pedra e acordei com o barulho do celular apitando. Peguei-o rapidamente e vi que tinham três ligações perdidas. Era de um numero desconhecido.
Fiquei pensando quem estaria me ligando de madrugada. Levantei e fui me vestir.
Eram nove horas da manhã, Alice e Pietro já estavam de pé. Enquanto ela fazia os afazeres domésticos, Pietro assistia desenho ainda de roupa de dormir.
Após o café da manhã resolvi ficar online. Não sei por que mas acho que já estava preparada para falar com minhas antigas amigas.
Fiquei um bom tempo para explicar para cada uma o ocorrido, e às vezes algumas coisas que elas me diziam me fazia sentir mal. Procurei me acalmar e contei para elas das minhas experiências aqui em Paris, de Luan, Alice, Bernardo... Elas não acreditaram que havia ocorrido tantas mudanças em tão pouco tempo em minha vida, para falar a verdade, nem eu acreditava.
Fiquei a tarde toda tagarelando com elas e sabendo as novidades. Até que Luan ficou online.
Ele me chamou rapidamente para saber o que estava fazendo. Disse a ele que estava apenas conversando com minhas amigas brasileiras. Ele ficou feliz mim e perguntou quando minhas aulas começavam.
Para falar a verdade ainda não havia falado com Alice sobre isso, o que sabia até agora é que seria a mesma escola que a de Bernardo, depois de tanta insistência de Adílio.
“- Alice... quando começarão minhas aulas?” - Perguntei descendo as escadas
“- Nossa que animação é essa de repente? Até ontem você nem ao menos queria tocar nesse assunto”. – Alice olhou para mim com cara de curiosidade.
“- Ah, acho que já estou me acostumando com idéia... alem do mais, Bernardo me apresentou alguns dos meus novos amigos. Já estou mais tranqüila agora!”
“- Bem, de acordo com a diretora suas aulas irão começar daqui a duas semanas”.
“- Hum...ok então”.
Subi as escadas e falei para o Luan, ele disse que as dele começava semana que vem.
Lizz diz;
- Normal escola particular costuma começar mais cedo! J
Luan diz:
- É infelizmente L
Lizz diz:
- Não esta feliz com isso?
Luan diz:
- Ah, sei lá, quando começar as aulas nós não vamos poder nos ver direito. :s
Lizz diz:
- Claro que vamos... Nos finais de semana.
Enquanto Luan respondia Bernardo começou a me chamar.
Bernardo di:
- Iaiii mala.
Lizz diz:
- Oi :P
Bernardo diz:
- Como passou a noite?
Lizz diz:
- Ótima e você?
Bernardo diz:
- Não muito.
Lizz diz:
- Pq?
Bernardo diz:
- Ah, sei lá... Acho que comi demais no shopping. Kkkk :P
Luan diz:
- Os finais de semana são pouco para mim! (L)
Lizz diz:
- UAHAUSHAUSAHS... (L)
- Mas nós podemos nos ver de semana, depois da escola.
Luan diz:
- Ah... assim sim *--*
Lizz diz:
- *--*
Bernardo diz:
- Ta ai? Você demora demais pra responder credo! Kkkk
Lizz diz:
- Ah, desculpa... é que não estou falando só com você ;p
Bernardo diz:
- Seeei, só pode estar falando com aquele tal de Luan. L
Lizz diz:
- Sim... e com umas amigas :D
Bernardo diz:
- Huum, sou mais eu em! kkkkk
Lizz diz:
- Para de se achar Bêr. ;p
Bernardo diz:
- Você nem falou comigo direito no shopping só por causa dele... magoei!
Lizz diz:
- Ah... desculpa! :s
Luan diz:
- O que esta fazendo?
Lizz diz:
- Falando com você e uns amigos, e você?
Luan diz:
- Falando com você e baixando musica J
Lizz diz:
- Huummm...
Bernardo diz:
- Vou pensar no seu caso baby! ;)
- Vou comer alguma coisa que estou morrendo de fome e já volto.
Lizz diz:
- Blz.
Luan diz:
- Huuuum J
O papo ficou assim a tarde toda, até que Alice me chamou para jantar.
Lizz diz;
- Vou sair Ber, até uma próxima...
Bernardo diz:
- Não me abandones aqui! L
Lizz diz:
- Você sobrevive sem mim! ;)
Bernardo diz:
- Não por muito tempo... ok ok, se é isso que você quer! Kkkk Vá!
- Beijos gatinha, te adoro (L)
Lizz diz:
- Beijão (L)
Luan diz:
- Ah, estava pensando em fazer algum curso tbm...
Lizz diz:
- Hum, amor tenho que sair! L
Luan diz:
- Ah, pq?
Lizz diz:
- Vou jantar e já estou cansada de ficar online :s
Luan diz:
- Ok vai lá! Bjs :*
Lizz diz:
- Beijos ;*
Me despedi de minhas amigas e desci para o jantar.
Durante o jantar Alice me contou sobre algumas histórias passadas com meus pais e mostrou mais fotos. Quando eram jovens costumavam viajar muito, Alice tinha um estilo diferente, era meio maloca! Achei engraçado comparado a como ela é agora.
“- Não adianta rir de mim não mocinha! Quando você crescer vai rir de si mesma ao olhar para as fotos de sua adolescência!” – Alice mostrou a língua para mim.
“- É talvez...” – retribui sua língua.
Continuei a folhear o álbum até que achei uma foto bem pequena fora do plástico, separada das outras fotos.
Era minha mãe jovem com um garoto que aparentava ser um pouco mais jovem que ela e minha avó do lado abraçando eles.
“- Quem é ele Alice? Por acaso é o tal de Julio Cesar?” – Encarei-a fixamente.
“- Não sei nem quem são esses na foto. Seu pai um dia me disse para guardar comigo...” – Os olhos de frustração de Alice ressurgiram.
Aquela história sobre Julio estava me deixando cada vez mais intrigada, não conseguia acreditar no que Alice falava, mesmo sabendo que a melhor coisa a se fazer era esquecer esse assunto, minha curiosidade não permitia.
Resolvi não tocar mais nesse assunto com ela, sem que ela percebesse peguei a foto, escondi no bolso e fechei o álbum.
“- Acho que já vou me deitar... estou com sono!” - Disse disfarçando um bocejo.
“- Ok princesa”. – Alice mudou sua face de frustração para um sorriso meigo. Me deu um beijo no rosto.
“- Boa noite Pietro” – Dei um beijo nele que apenas sorriu para mim.
Subi para o meu quarto e me vesti para dormir. Na verdade não estava com sono, eram apenas oito na noite, mas se eu continuasse lá em baixo com Alice minha curiosidade faria com que eu a enchesse de perguntas e não queria parecer inconveniente.
Sentei na cadeira da sacada de meu quarto e fiquei observando aquela foto.
Aquela garota se parecia muito comigo quando criança, e aquele garotinho me lembravam muito eu. Se não fosse uma foto tão antiga diria que eram meus irmãos.
A moça que estava junto a eles eu tinha certeza que era minha avó, já havia visto algumas fotos suas quando jovem e isso não me deixava duvidas. Aquela foto apenas era para mim como mais uma prova de que Julio Cesar era realmente irmão de minha mãe e que de alguma forma Alice sabia disso e não queria me contar.
Fiquei pensando por um longo tempo até que minha cabeça começou a doer. Resolvi deitar e ver se pegava no sono.
As duas semanas passaram bem rápidas, durante ela visitei Bernardo algumas vezes e ele me ensinou a tocar um pouco de violão. O cavalo já havia se acostumado com minha presença e nem tentava me derrubar como na primeira vez.
Luan veio me visitar algumas vezes e me levou para tomar sorvete e conhecer um pouco de Paris. Mesmo Alice não confiando muito em nós dois, depois da fugida que dei, ela começou a se acostumar com a idéia.
“- Bom dia luz do dia!” – Alice me acordou abrindo as cortinas da sacada. “-Vamos mocinha é dia de aula, Adílio disse que quer te levar para a escola junto com Bernardo para você não se sentir desolada”. – Alice olhou para mim com cara de deboche.
Mostrei a língua para ela e levantei para tomar banho.
Me vesti, peguei os cadernos e estojo que Alice havia comprado para mim, coloquei na minha bolsa, uma toda rosa que havia comprado no Brasil e desci para tomar café.
Pietro não parecia muito feliz com a idéia de voltar para a escola. Ele adorava as férias de meio de ano.
Alice disse em francês para que se animasse ele apenas sorriu para ela e continuou a comer seu cereal.
Coloquei um pouco para mim também e comecei a comer até ouvir barulho da buzina da camionete de Adílio.
“- Vamos Lizz, Adílio já chegou!”
Levantei rapidamente, peguei minha bolsa e sai.
“-Tchau tia”. – Disse dando um beijo no rosto de Alice. “- Tchau Pietro” – Passei a mão em sua cabeça.
Entrei na camionete e Adílio já estava bem animado, mesmo sendo bem cedo ele parecia estar acostumado. Cumprimentei-o e Bernardo que estava com a maior cara de sono.
“- Esta pronta para o primeiro dia de aula?” – Adílio disse tentando me animar.
Ri de seu jeito espalhafatoso.
“- Para pai, desse jeito você vai assustar ela.” – Disse Bernardo rindo baixinho com a cara de bobo do pai.
Eu e Adílio conversamos o caminho todo, Bernardo às vezes trocava uma palavra ou outra, mas seu sono parecia ser muito grande para falar.
Chegando na escola, me deu um certo frio na barriga, estava preocupada com o que pensariam da novata!
Bernardo ficou o tempo todo do meu lado enquanto cumprimentava seus amigos e me apresentava para eles. Cada aluno era diferente do outro, alguns japoneses, outros ruivos... As etnias em Paris eram bem variadas e as línguas faladas também. Mesmo o idioma local sendo francês, existiam grupinhos de intercambio que falavam variadas línguas.
Bernardo tinha muitos amigos franceses, mas preferia ficar junto dos brasileiros. Ele dizia que os brasileiros eram mais animados, mais companheiros.
Enquanto entrávamos ouvi chamarem o nosso nome.
“- Lizzie, Ber! Aqui”.
Viramos para trás e era Isabela. Desta vez seu visual era mais desleixado, cabelo preso em uma trança, calça jeans tênis All Star e blusinha. Mesmo assim, não deixava de estar na moda.
Ela me lembrava muito minhas amigas brasileiras.
“- Lizzie estava falando com a coordenadora e ela disse que você esta na mesma sala que a gente! Legal não é?” – Ela parecia bem animada com a idéia.
Imaginei que existisse uma sala separada para os alunos estrangeiros, mas não! O primeiro colegial era todo misturado, possuía alunos de intercâmbio de vários lugares do mundo e isso me deixava maravilhada.
Sentei do lado de Isabela e atrás de Bernardo. A galera do shopping também era da mesma sala que a nossa, sentaram todos ao nosso redor e começaram a conversar. Fiquei me sentindo um pouco deslocada no começo, pois eram tantos assuntos para eles colocarem em dia que nem tive muito espaço para falar. Resolvi mexer no meu celular para fingir que estava fazendo alguma coisa ao invés de ficar olhando com cara de taxo.
“- Vocês sabiam que trocaram de espetor?” – Disse a Isabela, que pelo jeito parecia ser a que mais sabia dos últimos assuntos da escola.
“- Ainda bem, ninguém merece aquele nojento do Rui!” – Respondeu a Nayra revirando os olhos.
“- Só porque ele era meio tarado!” – Retrucou Bernardo.
Todos riram.
“- Ah credo, ele olhava pra gente de uma forma estranha. Parecia um psicopata!” – Isabela riu.
“- Como chama o novo espetor?” – eu disse tentando entrar no assunto.
“- Ah o pessoal estava comentando mais nem lembro muito bem o nome dele”. – Isabela começou a pensar. “- Acho que era Jorge, sei lá”.
“- Nem pra ser uma mulher dessa vez...” – Bernardo disse e piscou para Victor que riu.
“- Parem de serem tarados!” – Isabela deu um tapa no braço de Victor.
A professora entrou na sala e todos se sentaram comportados.
Ela deu as saudações em Francês e começou a falar. Eu entendi pouca coisa, apenas algumas palavras que estava acostumada a ouvir Alice dizer. Isabela e Bernardo traduziam o que ela dizia para mim.
No intervalo, Isabela me explicou como funcionavam os esquemas da escola. Os horários das aulas, o tempo de refeição, o nome dos professores e como eu iria me acostumar com o francês rapidamente.
“- Os professores não são todos originalmente franceses, a maioria é bilíngüe e estão acostumados com alunos de várias partes do mundo. Se você sentir dificuldade em entender o que eles dizem, tem as aulas de reforço que é feita com uma professora que entende português. Ela pode te ajudar. É claro que eu, Bernardo e os outros alunos brasileiros vão te ajudar no começo, depois você começa a pegar o jeito e a entender pelo menos um pouco o que eles dizem”.
Enquanto tirava minhas duvidas íamos comendo. Bernardo era bem agitado e falante, até mais que Isabela. Ele não parava quieto, cada hora conversava com um. Algumas meninas davam em cima dele, mas ele parecia nem dar bola.
Enquanto Isabela falava fiquei só observando ele e lembrando o que Alice havia me dito sobre meus sentimentos. Bernardo era bem divertido e me fazia me sentir muito bem, ele era diferente dos meninos que estava acostumada no Brasil, ele era humilde e espalhafatoso, o oposto de Luan, que me fazia lembrar dos garotos que saía no Brasil.
Após o intervalo era aula de matemática, mesmo que o professor não falasse a mesmo idioma que eu, continuava muito chato ter que assistir.
Na aula de artes tivemos que sentar em dupla, Isabela quis se sentar comigo. Tínhamos que observar algumas obras de Leonardo da Vinci e citar detalhes sobre ela, características, etc.
Eu fui ajudando Isabela falando, enquanto ela escrevia em francês. Procurei prestar atenção para ver se aprendia.
No final das aulas todos pareciam dar graças a Deus que tinha acabado. Mesmo que fosse o primeiro dia de aula depois das férias, para os alunos pareciam ser anos sem intervalo.
Sai conversando com Isabela e Victor, Bernardo foi junto com seus outros amigos.
Na saída, Isabela e Victor se despediram de mim e disseram que sempre voltavam a pé juntos. Fiquei sozinha por um tempo mexendo no meu celular, enquanto Bernardo continuava entretido com seus amigos. Às vezes eu dava uma olhada com o rabo do olho para ver o que ele estava fazendo e reparava que ficava olhando para mim o tempo todo.
Fingi não reparar até que ele se despediu e veio em minha direção.
“- Iai gostou do primeiro dia de aula gatinha?” – Perguntou cutucando meu ombro.
“- Gostei... principalmente das amizades”. – Disse guardando o celular.
“- Sabe o que eu estava pensando... da gente ir a pé até uma sorveteria aqui perto... pra você conhecer mais Paris... O sorvete é bem gostoso!” – Bernardo piscou para mim.
“- Ah, seu pai não vai ficar bravo...”
“- Claro que não! Ele sabe que estou com você! Não sei por que, mais ele confia mais em você do que em mim! (risos)” – Bernardo revirou os olhos.
“- Esta bem então...” – sorri pra ele.
“- Ótimo...” – Ele puxou meu braço e saímos andando.
O caminho até a sorveteria não era longo, ao chegarmos nela Bernardo parecia conhecer os donos e já se sentiu em casa.
“- Tony prepara ai o de sempre pra mim! O que você vai querer flor de lizz?”- Bernardo me encarou e piscou os olhos.
“- Ah, não conheço os sorvetes aqui de Paris ainda... Pede para mim o que você acha gostoso!” – Sorri para ele.
“- Tony dois do se sempre, por favor.”
Tony apenas fez que sim com a cabeça e sorriu. Ele falava português, mas bem mal, entendi apenas o básico depois de muito Bernardo ensinar.
Tomamos o sorvete e Bernardo ficava me encarando o tempo todo. Procurei disfarçar o olhar.
“- Verdade que você e aquele tal de Luan estão quase namorando?” – continuou me encarando.
Depois de tudo que havia pensado, do que Alice havia dito, nem sabia realmente o que responder.
“- Ah, não sei... eu não o conheço direito!” - respondi concentrada no sorvete.
“- Você parece que se esqueceu de nossa conversa no sítio...”
Depois dessa eu quase engasguei. Achei que aquele papo de que ele queria namorar comigo era brincadeira.
“- Bernardo você é um garoto bonito, deve ter suas paqueras”. – Retruquei tentando contornar o assunto.
“- É eu tenho...” – ele respondeu concentrado no sorvete também. “- Mais nunca me interessei de verdade por nenhuma delas”.
“- Verdade?” – retruquei.
“- É... sei lá”. – ele me encarou e sorriu.
Cortamos o assunto e continuamos a comer. Bernardo perguntou se havia gostado de Isabela, eu respondi que sim, mesmo que às vezes ela falasse demais. Ele riu.
Não ficamos muito tempo na sorveteria, Adílio começou a ligar atrás de Bernardo perguntando onde estávamos.
“- Vamos pra escola de novo que eu disse que estávamos voltando” – Bernardo riu.
“- Você não disse para ele que fomos à sorveteria?” – Encarei-o com uma cara de má.
“- Eu não... ele nem sabe da existência dela. Pra falar a verdade nenhum dos meus amigos sabem. Só eu e agora você!” – Bernardo piscou para mim.
Apenas sorri para ele.
Voltamos para a escola que já não tinha quase ninguém, sentamos na escada que dava para a porta de entrada e ficamos esperando.
“- Nossa aquele sorvete vai acabar me dando um resfriado!” – eu disse me encolhendo toda com o vento frio.
“- Não tem importância, se você ficar doente, com certeza eu também vou ficar!” – Bernardo me abraçou.
Ficamos em silêncio por um tempo, fiquei pensando que talvez fosse sacanagem com o Luan eu estar abraçada com o Bernardo. Mas estava me sentindo tão quentinha que nem ao menos queria me mover.
Adílio parou com a camionete em nossa frente.
“- Vamos logo que esta esfriando!”.
Durante a semana comecei a me acostumar mais com os professores e os alunos, ainda era difícil entender o que eles falavam, mas as meninas me ajudavam bastante com isso.
Na sexta feira no intervalo as meninas me disseram que tinha um garoto do 3° que queria ficar comigo. No começo fiquei assustada e até pensei que fosse brincadeira, mas elas o chamaram para falar comigo!
Ele veio em direção a minha mesa, e eu olhei para os lados procurando algum refúgio. Todos me olhavam com curiosidade, inclusive Bernardo, que não parecia muito feliz com aquilo.
Isabela acenava com a mão dizendo que estava tudo bem. Mas o pior é que eu sabia que não estava nada bem, não sabia o que falar o que fazer! Eu estava enrolada com o Luan e em duvida a respeito de meus sentimentos com ele. Ficar com aquele menino só iria estragar tudo, me confundir, borrar minha imagem com Bernardo e ainda por cima me deixar com o maior peso na consciência.
“- Oi... Esta bem?”- O garoto me encarava com curiosidade.
“- Oi... Como assim... Claro que estou bem!” – respondi tentando organizar as coisas em minha mente. Pelo jeito, ele também era um dos alunos de intercâmbio brasileiro.
“- Ah, é que já disse oi pra você duas vezes e você parece estar pensando em outra coisa...”
Resolvi deixar de boiar tanto e olhar nos olhos do garoto, que já devia estar me achando uma louca... Uma novata louca!
Ele era branquinho como eu e tinha cabelos castanhos claros, não era feia, muito pelo contrário! Mas eu realmente não senti nada em estar falando com ele, nada alem de uma vontade enorme de que aquele sinal tocasse e eu tivesse uma desculpa para deixá-lo falando sozinho.
“- Desculpa, é que estou com dor de cabeça...” – Olhei para ele e sorri.
Ele sentou ao meu lado e passou as mãos em meus cabelos.
“- Quer que eu te leve a enfermaria?” - Me encarou.
Até que não seria uma má idéia que ele me levasse a enfermaria... Eu poderia fingir estar passando mal e ele me deixaria lá sozinha com a enfermeira... Ou talvez, quisesse ficar lá comigo até que eu melhorasse... Melhor não então!
“- Não... estou bem...”.
Finalmente o sinal tocou. Senti um enorme alívio em ter um bom motivo para levantar daquela mesa, me despedir daquele garoto e entrar na sala.
“- Bem, acho que teremos que deixar nossa conversa para depois...”
“- Sim...”
O pátio já estava vazio e o espetor veio em nossa direção.
“- Não esta na hora de voltarem para a sala?”. – disse me encarando.
“- Nós já estávamos fazendo isso...” – respondi levantando e saindo.
Enquanto o garoto do 3° saia o espetor disse para que eu esperasse um instante. Estava com medo de que ele quisesse me dar uma bronca ou me levar para a diretoria. Pensei em todas as coisas erradas das quais eu poderia ter feito, mas nada veio em minha cabeça, apenas o fato de ter me atrasado para entrar na sala de aula.
Procurei manter a calma e ouvir o que ele tinha para me falar.
“- Desculpe... Prometo que isso não irá se repetir!”- disse em uma tentativa de que ele me deixasse sair.
“- Não te chamei por causa disso Lizzie” – ele retrucou me encarando nos olhos.
Estava tão nervosa que ignorei o fato dele estar falando meu idioma... Mesmo que tivesse um sotaque estranho.
“- Porque me chamou então?” – Encarei-o com curiosidade.
Ele ficou um tempo em silêncio apenas me olhando.
“- É que eu descobri que você gosta muito de balé...”
Como ele sabia de uma coisa dessas? As únicas pessoas que sabiam sobre isso eram Bernardo, Luan, Alice e Adílio...
“- Quem te contou sobre isso?”- perguntei quase que automaticamente.
“- Ah... Um de seus amigos me contou...”- Seu olhar continuava fixo nos meus. “- Mas acho melhor conversamos outra hora... você esta atrasada para a aula”.
Achei aquela conversa muito estranha. Porque Bernardo teria contado isso para ele? E o porquê ele se importava com isso?
Abri a porta de minha sala e todos os olhares se viraram para mim. Com certeza queriam uma explicação de estar para fora até agora.
A professora sabia que eu não entendia seu idioma, mas mesmo assim disse alguma coisa e apontou sua mão para a minha mesa.
Me direcionei em silêncio até ela, ignorando os olhares curiosos. Bernardo olhava para mim com certa decepção, parecia estar imaginando vários motivos dos quais havia me atrasado, motivos que envolviam o garoto do 3°.
“- Nossa, pelo jeito deu tudo certo com o Thiago.” – Isabela disse baixinho e piscou.
Então era esse o nome do infeliz? Fiquei pensando.
“- Não... nós não ficamos.” – respondi a ela.
“- Como assim...”.
“- Depois te explico...” – retruquei rapidamente, antes que a professora se irritasse mais ainda comigo.
É obvio que eu não iria contar para a Isabela sobre minha conversa com o espetor, isso só faria com que ela colocasse minhocas em sua cabeça.
Não consegui me concentrar a aula toda, pensando nos motivos que o espetor teria de tocar no assunto da minha paixão por balé, ou no porque Bernardo havia contado isso a ele.
Ao termino das aulas Bernardo parecia estar me evitando, corri atrás dele pelo corredor lotado, mas ele parecia nem me ver, ou pelo menos fingia que não.
Quando finalmente consegui o parar ele apenas olhou para mim com indiferença. Não sei por que mais aquele olhar me deixou bem triste. Não queria que ele estivesse magoado comigo.
“- Bernardo... precisamos conversar...” – disse ofegante.
“- Tudo bem...” – respondeu indiferente.
Saímos e nos direcionamos perto das arvores, onde não tinha ninguém para nos atrapalhar.
“- Então...”- Bernardo me encarou.
“- Pra começar, gostaria de te falar que não fiquei com o Thiago...”
“- Eu não tenho nada haver com isso Lizz...” – Bernardo encostou-se a uma das arvores e colocou as mãos no bolso.
“- É... eu sei, mas parece que você ficou estranho comigo depois do que aconteceu no intervalo...”
“- Ah... não é que eu esteja bravo... é que sei lá, não me senti bem com aquilo!” – Bernardo me encarou.
“- Desculpa... Você sabe que a ultima coisa que eu quero é te magoar...” – respondi olhando para baixo.
Ele desencostou da arvore e veio em minha direção.
“- Eu sei... Mas acho que isso é inevitável...” – disse erguendo meu queixo.
“- Mais por quê?”
“- O porquê eu não sei... parece que tenho ciúmes de você”.
Meu coração acelerou, não sei se queria ter escutado isso de Bernardo, não queria que ele tivesse sentimentos por mim enquanto eu estava tão confusa com os meus. Ao mesmo tempo em que minha consciência pedia para ele parar e ser apenas meu amigo, meu coração pedia para ele continuar e batia bem forte, como se eu precisasse ouvir aquilo.
Isso me deixava totalmente confusa, me sentia como uma aproveitadora, que queria apenas conquistar o amor dos garotos que eu mais me importava e simplesmente fazê-los sofrer.
“- Não precisa ter ciúmes de mim...” – respondi cortando o silêncio.
“- Por que não?... Você será minha finalmente?” – Bernardo aproximou-se mais ainda.
Fiquei quieta, tentando digerir o que ele havia dito e tentando pensar em uma boa resposta. Uma resposta que deixássemos nós dois felizes, que não causasse mal a mim, nem a ele e muito menos ao Luan.
Bernardo não esperou que eu o respondesse, acariciou meu rosto e me beijou. Não foi um beijo, mas sim apenas um selinho demorado.
Coloquei minhas mãos em seu peito tentando empurrá-lo, mas não conseguia. Não que ele estivesse me agarrando à força, eu não conseguia pelo simples e ridículo fato de não querer!
Eu me sentia mal, me sentia uma bruxa... Mas ao mesmo tempo me sentia bem, a vontade de agarrá-lo e beijá-lo de verdade era muito grande que não consegui suportar.
Nos beijamos de verdade e desta vez ele que me empurrou. Eu apenas o encarava sem saber o que falar.
“- Desculpa...” – foi a única coisa que saiu no momento.
“- Desculpa do que? De realizar aquilo que eu mais queria?”
Fiquei quieta e não respondi mais nada. Ele segurou minha mão e me puxou para a casinha ao lado, onde ficavam as bolas e objetos dos jogos.
Entramos lá dentro e ele começou novamente a me beijar. A coisa começou a esquentar e eu não sabia como parar. Não sabia ou não queria...
Ele tirou minha blusa e continuou me beijando, até que achei forças realmente para empurrá-lo.
“- Desculpa Lizz, por favor, desculpa...” – Ele parecia realmente arrependido.
“- Tudo bem... Nós dois agimos por impulso...” – respondi colocando de volta minha blusa. “-Olha Bernardo, eu te peço... peço para que isso não ocorra novamente... Eu realmente estou confusa!”
Bernardo abaixou a cabeça e concordou.
Saímos em silêncio e sentamos na escada da entrada. Dessa vez não conversamos durante todo o caminho até minha casa. Adílio pareceu perceber que algo estava acontecendo, mas resolveu ficar em silêncio também.
Em casa o clima parecia mais calmo. Almocei e subi para o meu quarto.
Liguei o computador e fiquei online, torcendo para que Bernardo não estivesse. Minhas amigas vieram direto falar comigo mas estava tão confusa que nem tinha pique para respondê-las. O corrido com Bernardo me deixou tão desnorteada que nem ao menos consegui tocar no assunto do espetor e o balé com ele.
Luan diz:
- Oi meu amor :D
Meu coração acelerou. Me senti uma traíra.
Lizz diz:
- Oi.
Luan diz:
- Como foi a escola hoje?
Lizz diz:
- O msm de sempre :s
Luan diz:
- Hum... você parece estranha. Aconteceu alguma coisa lá?
Ele parecia adivinhar as coisas.
Lizz diz:
- Nada demais, só um espetor maluco que ficou me empatando.
Luan diz:
- Hum...:s
Eu realmente não estava afim de falar com ninguém, muito menos com Luan. Estava com os sentimentos muito confusos com todos os acontecimentos na escola. Me sentia mal pelo que fiz, trai a confiança dele e iludi Bernardo. Eu realmente precisava de um tempo dos dois...
Lizz diz:
- Luan, eu preciso falar com você... Pessoalmente.
É obvio que eu não iria contar para ele do ocorrido com Bernardo.
Luan diz:
- :s É alguma coisa ruim?
Lizz diz:
- Aonde podemos nos encontrar e quando?
Luan diz:
- Bem, como amanhã é sábado, podemos ir jantar no restaurante do meu pai...
Lizz diz:
- Ok, amanhã eu te ligo confirmando tudo.
- Preciso sair, bjs ;*
Desliguei o computador antes que ele respondesse, não queria ter que dar explicações para ele.
Me sentia realmente mal por tudo que estava fazendo, talvez fosse um erro ter que pedir um tempo para Luan, eu gosto de estar ao lado dele... Mas não quero enganá-lo com meus sentimentos divididos. Essa convivência com Bernardo esta me fazendo duvidar do que antes parecia concreto. Talvez Alice tivesse razão, eu apenas achava nele, um pedaço de meu passado, um refúgio de tudo que estava passando.
Eu não queria que nada disso tivesse acontecido... Há um mês a única coisa da qual era importante para mim, a única coisa que me fazia perder o sono era a morte de meus pais. Mas agora, mal pensava neles e isso me deixava muito mal. Sentia falta de minha mãe; das coisas que ela falava para me confortar, dos conselhos que me dava... Com Alice não é a mesma coisa, por mais que ela tente se aproximar de mim nunca vai ser o mesmo! O carinho, o afeto, o amor, a calma da qual eu tinha perto de minha mãe e de Rose... Nunca igual, e essa será uma angústia que sempre guardarei em meu peito, principalmente nos momentos dos quais eu preciso de uma palavra amiga, de um abraço apertado.
Até agora foi fácil esquecer a dor, pois nos momentos alegres e descontraídos acabamos esquecendo ela... Mas momentos como esse que nos fazem sentir falta realmente, daquilo que sabemos que nunca mais irá voltar.
Deitei em minha cama e o buraco em meu peito parecia voltar... Não me senti mal por isso... Pois de alguma essa dor era uma prova a mim mesma de que ainda sinto saudades deles, de que ainda me importo com sua perda.
Fechei meus olhos e coloquei as mãos no peito, querendo abraçar aquela dor. Fiquei assim por um bom tempo, suficiente para cair no sono.
Acordei com meu celular tocando. Era aquele numero desconhecido novamente.
“- Alô?”- Minha voz saiu rouca.
“- Oi...” – respondeu uma voz de homem.
“- Com quem eu falo?” – Retruquei.
Será que seria aquele meu tal tio novamente?
“- Com o Julio Cesar”.
“- Ah, o meu suposto tio...” – retruquei ironicamente.
“- Ele mesmo... Estou te incomodando?”- Sua voz era calma.
“- Não... eu estava querendo falar com você mesmo...” – Procurei manter a calma.
Aquela era a hora de tirar todas as minhas duvidas. Já tinha frustrações demais em minha cabeça, e menos uma seria realmente muito bom!
“- Pois bem, o que queria falar comigo?” – respondeu ainda calmo.
“- Eu estava com dúvidas a respeito de você ser uma farsa, mas encontrei com minha madrinha uma foto sua, junto com minha mãe e minha avó, quando eram crianças”. – procurei manter minha voz uniforme.
“- Eu disse que era seu tio!”
“- Só queria saber o porquê de você me esconder isso todo esse tempo e agora querer que eu saiba...” – retruquei.
“- Já te disse que depois da morte de seus pais me sinto responsável por você...”
“- Então por que não esta aqui em Paris comigo? Por que não pediu minha guarda?”
O telefone ficou mudo de repente, como se ele não quisesse me responder.
“- Alô esta ai?” – perguntei agora nervosa.
Ele desligou.
Estava nervosa agora, porque ele ligou para mim se não queria falar comigo? Se não queria responder minhas perguntas? Eu queria tirar as frustrações de minha cabeça, mas parece que quanto mais tentava resolver os problemas em minha vida, mais problemas surgiam para me derrubar.
Na janta procurei esquecer todos os problemas que me atormentavam... Perguntei para Alice se poderia jantar no restaurante do pai de Luan e mesmo ela fazendo uma cara de quem não havia gostado da idéia, disse que sim.
Pietro estava me ensinando a falar algumas frases em francês, usando seus joguinhos de palavras que havia ganhado em seu aniversário. Ficamos brincando por um bom tempo, até que Alice pediu para que fossemos dormir que já estava tarde.
Não dormi muito bem a noite, parece que quando estamos desocupadas é mais difícil esquecer os problemas.
Acordei antes de meu despertador, e resolvi levantar e me ocupar com alguma coisa. Quando Alice entrou no quarto já estava vestida lendo o livro que Luan havia me emprestado.
Quanto mais lia aquele livro mais me interessava pelo espiritismo. Sentia certa paz e segurança, como se tudo tivesse seu jeito, sua solução.
Tomei meu café da manhã mais calma desta vez. Graças a Deus era sábado e pelo menos até o jantar eu não tinha que me preocupar com nada.
Fui ao mercado com Alice e Pietro e lá encontramos Adílio que perguntou o porque do clima estranho na volta de escola de ontem.
“- Ah, não era nada, só estávamos cansados...” – menti.
“- Hum, não sei não! Bernardo passou a tarde toda em seu quarto... Tocando umas musicas deprimentes em seu violão”.
Eu já imaginava que Bernardo estava mal... Além do mais, ele esperava por aquele momento comigo. Ao contrário de mim...
“- Ah, não sei...” – disfarcei olhando os queijos. “- Eles parecem estar bem gostosos... Vou pedir para Alice comprar um para mim!”
“- Não precisa... Escolha um de seu gosto que te dou de cortesia!”
Enquanto falava comigo Adílio não parava de olhar para Alice e observar seus movimentos.
“- Você gosta bastante dela não é?” – retrucou eu e minha boca grande.
“- Sim... Mas quem sabe um dia ela goste de mim também não é?” – Adílio piscou para mim.
“- É quem sabe...” – pisquei de volta.
Ficamos conversando enquanto Alice e Pietro faziam as compras. Estar com Adílio me fazia me sentir bem! Gostava muito das conversas e das histórias de sua vida que ele me contava... Isso me descontraía.
Em casa Alice me ensinou a preparar algumas comidas típicas da região e ensinei-a algumas receitas brasileiras que Rose fazia para mim.
Ela adorou e prometer que um dia tentaria fazer. Comemos e conversamos tranquilamente; Pietro insistiu em continuar a me ensinar francês e eu achei uma gracinha ter ele como professor.
“- Alô.” – atendi meu celular que não parava de tocar.
“- Oi, sou eu o Luan... Quero saber se o nosso encontro esta ainda em pé!”
Ele chamava nosso jantar de encontro, e eu chamava de tristeza... Ele nem esperava o que estava por vir! Me senti triste.
“- Ah, sim...” – Respondi procurando manter a calma na voz.
“- Que horas quer que eu te busque?”
Não sei se seria uma boa idéia ele vir me buscar, não queria ter que fazê-lo me trazer de volta para casa depois de terminar com ele.
“- Não... não precisa vir me buscar! Alice vai me levar!”
Quando citei seu nome Alice fez uma cara de preguiça, mas ignorei.
“- Ok pode ser daqui à uma hora? 6 horas pra você esta bom?” – ele respondeu.
“- Tudo bem... Te vejo daqui a pouco.” – minha barriga revirava de medo.
“- Ok, beijos...”
“- Beijos...”
Alice me encarava com cara de quem comeu e não gostou.
“- Ah Alice desculpa, mas eu não quero que ele me leve... Vou me sentir mal depois...”
“- Porque se sentir mal?” – Alice retrucou pensativa.
Pelo jeito não vai ter como eu esconder isso dela... Eu precisava realmente desabafar com alguém, pedir conselhos para alguém.
“- Eu vou terminar com ele... Quer dizer, não que estivéssemos namorando... Mas quero pedir um tempo de nosso relacionamento... Eu fiquei pensando naquilo que você havia me dito sobre estar encontrando nele um refúgio... Não sei talvez você tenha razão! Meus sentimentos estão divididos.”
“- Você esta gostando do Bernardo não é mesmo?” – Alice fez uma cara meiga.
“- Ah, não sei sinceramente! Eu tenho medo de fazer com que ele acredita que sim, e no fundo, eu não sinta nada por ele alem de amizade... Por isso quero pedir um tempo para o Luan, não quero enganar nenhum dos dois com meus sentimentos divididos.”
“- Olha Lizz... Na sua idade isso é normal... O que eu quero que entenda é que não importa, mas de uma forma ou de outra você vai acabar tendo que magoar um dos dois, para você ser feliz! Não deixe de seguir o que o seu coração fala, apenas preocupada com o que podem achar disso! Se preocupa com você em primeiro lugar”.
As palavras de Alice me deram certa segurança; é sempre bom saber a opinião de alguém mais experiente antes de tomar alguma atitude, a gente sente que temos com quem contar se por um acaso der algo errado.
Tomei banho e me vesti. Alice e Pietro me levaram até o restaurante e desejaram boa sorte.
Meu coração acelerava a cada passo que eu dava perto a porta, até que respirei fundo e entrei.
Luan acenou para mim e fui em sua direção.
“- Oi.” – ele disse sorrindo.
“- Oi...”- respondi querendo me matar.
Seria mais difícil do que imaginava ter que terminar com ele... Eu ao menos havia pensado uma explicação para lhe dar.
“- Que tempinho frio não é?” – Foi à bobeira que saiu da minha boca.
“- Sim... Você quer falar comigo agora ou depois de comermos?” – Luan me encarava.
Ele esta perguntando se eu quero matar ele agora ou depois de comer... Meu coração continuava acelerado.
“- Acho melhor comermos antes.” – Respondi depois de pensar um pouco.
Fizemos nosso pedido e Luan perguntou como estava sendo a experiência em uma escola nova. Eu respondi que estava gostando bastante e minhas amigas e Pietro estavam me ensinando a falar francês.
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